Lula se reúne com Dilma e ministros em Brasília para discutir crise

Presidente disse que vai lutar com ‘unhas e dentes’ pelo seu mandato; mas o ex-presidente acha que a reação não foi suficiente para reverter o quadro negativo

 

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Após duras críticas que recebeu do seu padrinho político, que disse que ela e o PT estavam no “volume morto” e que governo enfrenta uma crise “preocupante” e “dramática”, Dilma Rousseff se reuniu nesta terça-feira, 14, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que desembarcou em Brasília nesta manhã para uma reunião-almoço com a presidente no Palácio da Alvorada.

Vários ministros participaram do almoço que começou por volta das 12 horas, entre eles o da Casa Civil, Aloízio Mercadante, e da Comunicação Social, Edinho Silva. Na pauta, a grave crise política que a presidente Dilma está vivendo, com a insistência de parte da oposição de reivindicar a saída da presidente em ações que correm contra a presidente no TCU e no TSE.Todos já deixaram o Alvorada. A reunião durou mais de quatro horas.

Dilma reagiu às mobilizações por sua saída que o governo chama de “golpistas” e disse que vai lutar com “unhas e dentes” pelo seu mandato. Mas Lula acha que a reação não foi suficiente para reverter o quadro negativo que domina Brasília e continua fazendo críticas à atuação política da presidente. Enquanto isso, o governo sofre novos golpes, seja com derrotas na Câmara e Senado em votações, seja por conta da convocação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que irá explicar no Congresso as operações da Polícia Federal. Da Istoé

Inverno quente

 Coluna Carlos Brickmann
Ele já sofreu impeachment por causa de uma peruinha Fiat Elba. Agora a Polícia Federal invadiu sua casa, recolheu documentos e apreendeu três carros bem mais caprichados que a Elba: uma Ferrari, uma Lamborghini, um Porsche. Fernando Collor (PTB) entrou na Operação Politeia, um dos ramos da Operação Lava Jato (Politeia é a cidade imaginada por Platão em que a ética imperava). A operação alcançou 53 pessoas em seis Estados e no Distrito Federal. Com Collor, mais dois senadores (Fernando Bezerra Coelho, PSB, amigo de Eduardo Campos, ex-ministro de Dilma, e Ciro Nogueira, presidente nacional do PP), outro ex-ministro de Dilma, Mário Negromonte, PP, o deputado Eduardo da Fonte, PP.

Um inverno quente, que ainda vai esquentar: hoje está marcado o depoimento do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na CPI da Petrobras. Ontem houve a posse da nova presidente da UNE, que promete protestar no Congresso contra a redução da maioridade penal, contra Eduardo Cunha, em favor da Petrobras. No começo da semana, os black-blocs voltaram em grande estilo, em São Paulo – o primeiro ensaio para tumultuar as demonstrações de rua e prejudicar a Marcha Fora Dilma, prevista para 16 de agosto. E, na sexta, o deputado Eduardo Cunha, do PMDB, fala em rede nacional de rádio e TV (hoje em dia, falar em “cadeia nacional”, como já foi hábito, pode provocar reações estranhas e até injustas explosões de alegria) sobre as realizações da Câmara neste primeiro semestre.

Tudo ajuda a deixar a situação mais tensa. Mas vai melhorar até o Natal.

Togas esvoaçantes

Era outra época, claro. O desembargador paulista Sílvio Barbosa devolvia todos os presentes que recebia, fosse qual fosse o valor, fosse qual fosse o motivo; não aceitava carona nem quando ia a pé para o Fórum e pegava uma chuva. Não ficava bem um juiz receber favores de alguém a quem poderia eventualmente ter de julgar. E é outro país, claro. Nunca ninguém ouviu dizer que o presidente da Suprema Corte americana, John Roberts, tenha conversado informalmente com o presidente da República, o presidente do Congresso, empresários ou advogados.

Tudo mudou: o presidente do Supremo se encontra com a presidente da República em Portugal (e só não foi em segredo por incompetência). O ex-presidente do Supremo se reúne com o presidente da Câmara e conversam sobre o impeachment da presidente da República. Tudo tão mal feito que esqueceram de combinar o que diriam: Eduardo Cunha garantiu que o afastamento de Dilma não entrou na conversa, Gilmar Mendes disse que o tema entrou lateralmente.

Nem o juiz Sérgio Moro se privou de opinar sobre concorrências públicas: queria afastar empresas que ainda estão sendo investigadas, em casos que sequer foram julgados.

E pensar que houve tempos em que juiz só falava nos autos!

Os azares desta vida

O escritor francês André Maurois dizia que “tais são os azares da vida que todo acaso se faz possível”. O presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, é do tipo que atravessa a rua para pisar numa casca de banana do outro lado.

Quando o Supremo aceitou a ação penal do Mensalão, ele foi jantar num restaurante e falou por celular com seu irmão. Disse que a tendência era amaciar para José Dirceu mas que todos votaram com a faca no pescoço, acuados pela imprensa. Na mesa ao lado, uma boa repórter que Lewandowski não conhecia, Vera Magalhães, da Folha de S. Paulo, anotou tudo e tudo publicou. Desta vez, ele estava em Coimbra, e soube que o avião de Dilma, em vez de fazer escala em Lisboa, por acaso desceria no Porto. Viajou então uns 130 km e, no Porto, se encontrou por acaso com a presidente. Sigilo total. Ou quase total: o repórter Gérson Camarotti, de O Globo, soube do encontro e o divulgou. Os dois presidentes, da República e do Supremo, explicaram que a conversa tinha sido apenas sobre o aumento dos servidores do Judiciário. Então, tá.

Poderiam ter conversado em Brasília, onde um trabalha a pouco mais de cem metros do outro, e sem precisar do sigilo.

E mais ainda

O caro leitor acha que é muita falta de sorte? Pois tem mais: o terceiro participante do encontro DilmaLewandowski, ministro José Eduardo Cardozo, depõe hoje na CPI da Petrobras.

Qual será o assunto preferido das perguntas?

A Grécia é aqui

Na discussão (já chatamente partidarizada) sobre a Grécia, pouco se diz como os gregos se enfiaram no buraco. Nada que nos espante, a nós, brasileiros.

1– Cada carro oficial dispõe de 50 motoristas contratados pelo Governo;

2– O Lago Kopais é protegido por 1.763 funcionários públicos. Pena que o lago não mais exista: secou há 85 anos. Dele só restou a equipe administrativa;

3 – O Metrô de Atenas fatura € 19 milhões por ano. E custa € 500 milhões. Um ministro propôs que fosse fechado e que os passageiros usassem táxi, por conta do Governo. Seria mais barato;

4 – Como em todo o mundo, há aposentadorias especiais, precoces, para quem exerce profissões perigosas. Na Grécia, entre os beneficiados, há músicos especializados em instrumentos de sopro, cabeleireiros, apresentadores de TV.

Com esse estudo da Comissão Europeia fica mais fácil entender as coisas.

A FÍSICA, A INÉRCIA E A ECONOMIA

RUBENS MENIN

A crise político-econômica nacional virou o assunto do dia e vem sendo comentada ou discutida por um número cada vez maior de brasileiros. Essas abordagens são muito variadas e costumam externar as preferências ideológicas de cada pessoa, o maior ou menor nível de conhecimento desses mesmos interlocutores e, até, o grau de esperança ou otimismo com que vêem o futuro. Mas, alguns modelos simples podem ajudar na organização das idéias e na objetividade do raciocínio. Como engenheiro, recorro com freqüência aos modelos gráficos, às formas geométricas e aos conceitos da Física para organizar meus pensamentos ou para visualização de fenômenos econômicos ou sociais em analogias heurísticas de fácil percepção. É um hábito natural na minha profissão.

Com esse viés, vejo a economia brasileira (e a de qualquer outro país ou região) como um sistema complexo e pesado, posto a movimentar-se pelo esforço de todos os agentes envolvidos (empreendedores, consumidores, governo e a sociedade em geral). Gosto de comparar a economia a uma bola de chumbo. Desde que o País passou a se organizar – ainda nos tempos de colônia – essa bola passou a crescer e a se movimentar segundo as leis da Física, até atingir as dimensões e a velocidade atuais (uma bola de chumbo tanto maior e mais pesada quanto maior e mais complexa fica a nossa economia). Todo acréscimo de velocidade nesta bola (crescimento do PIB) resultou de um esforço equivalente por parte dos seus agentes econômicos. Quando o esforço total diminui até ficar apenas igual ao atrito (e outras formas de perda de energia) que a bola tem que vencer, o sistema mantém a velocidade inercial de antes, sem crescimento. Abaixo desse limite crítico, a bola vai perdendo a velocidade, materializando uma situação de recessão, com perda de renda e empregos e com a diminuição do PIB.

Segundo essa analogia, a redução na velocidade da bola pode resultar da diminuição conjunta dos esforços dos agentes (menor contingente de trabalho, queda de produtividade, redução dos investimentos, etc.) ou do aumento da resistência ao movimento, consumindo esforços não produtivos (excesso de burocracia, hipertrofia da máquina pública, insegurança jurídica, crescimento da carga tributária, etc.), ou, ainda, da conjunção dos dois tipos de fator. Da mesma forma, quando a velocidade da bola diminui, a perda da quantidade de movimento anterior, que deveria ser mantida pelas simples condições inerciais, resulta no desperdício de energia materializada no desemprego, na redução de salários, nas perdas de renda, na fuga de capitais, em empreendimentos paralisados, etc.). Essa é a situação da realidade econômica nacional, que posso ver atualmente por esse modelo de analogia física.

Aliás, para não fugir da Física, costumo associar o crescimento absurdo da resistência ao movimento, causado entre outras coisas pelo excesso de regulação, de burocracia e de intervenção governamental nos mercados, ao fenômeno da entropia, que segundo as leis da termodinâmica, descreve o crescente estado de desordem do sistema e de sua vizinhança, diminuindo a espontaneidade dos movimentos úteis.

Temos que modificar esse panorama com rapidez, aumentando a eficiência do nosso sistema produtivo. Vejo, pelo menos, dois obstáculos mais significativos: a falta de confiança (interna e externa) e a ausência de uma forte liderança política capaz de empolgar a nação e se identificar com o objetivo da volta do crescimento econômico. Esse último obstáculo é especialmente complicado, tendo em vista que os governantes recém eleitos estão imobilizados pelo quadro nefasto da inflação descontrolada, da falta de atratividade para investimentos, dos juros estratosféricos, da perda acelerada de empregos, da queda na renda média e dos escândalos de corrupção na maior empresa estatal brasileira. Mas é preciso resolver esse impasse, com eficiência e absolutamente dentro das regras democráticas. É o mínimo que devemos fazer, não apenas em nosso próprio interesse, como também por ser um tributo devido a todos aqueles que se esforçaram, por gerações, a empurrar a bola garantindo-lhe o movimento positivo, enquanto ela crescia, ficava mais complexa, oferecia mais empregos e garantia rendimentos maiores.

Rubens Menin é presidente do Conselho de Administração da MRV Engenharia e da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias)

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