OBRIGADA POR NADA

MARLI GONÇALVES

Repara como está aumentando a oferta de dicas. Elas batem em nossas portas, todo mundo querendo convencer você a fazer alguma coisa que se possa tirar uma casquinha. As dez dicas disso, sete dicas daquilo. Aí você, que está em busca de alguma orientação que preste, qualquer lampejo de luz no fim do túnel, corre para ir ver e o que lê são coisas tão óbvias que chegam a ser irritantes
Com a situação periclitante que estamos passando tem coisa que irrite mais do que ouvir alguém aconselhando você a poupar, separar parte do salário para uma emergência, dar dicas de investimentos “melhores” do que a poupança? Tirar o que de onde, se você já está até ficando craque em drible de contas atrasadas, já espatifou o porquinho, e acompanha o aumento dos juros como se fosse um cronômetro de mergulho em águas profundas? Para calcular quanto tempo vai conseguir ficar lá embaixo sem respirar, para não fazer bolha.

Mas isso é o de menos – pelo menos tentam ajudar suas economias: e aquelas dos delegados e policiais quando resolvem dar dicas de segurança? Não saia; se sair, não use nada de valor, feche os vidros, que sejam de preferência blindados, olhe para todos os lados, não relaxe! Atenção! Enfim, se vira sozinho porque a coisa está complicada – não conte com segurança oficial.

Eles fazem a cara mais séria, usam as palavras mais técnicas e dão voltas em si mesmos. Parece que andamos em terras minadas, nadamos em lagoas de patos. Um descuido e você acaba entrando na conversa de algum “diqueiro” mais profissional e convincente. Eles estão em todos os lugares e principalmente na internet. A dica é como uma isca presa em um anzol pronto a fisgar. É dica para turbinar a relação, as nádegas, a atração sexual – turbina tudo! Outro dia recebi um material que ofertava dicas matadoras; matadoras, sim, usaram essa palavra para descrever coisas como “o cliente quer ser bem tratado”. Não me diga.

Recebi também sobre um coach, um palestrante, de um país aqui do Mercosul, que quer vir para cá ensinar aos homens dicas de sedução. Fui ver o vídeo e, como assinalou um comentarista irônico na rede social, se aquele cara ali, meio seboso, se ele seduz alguém, esse curso realmente deve ser espetacular. Custa uma grana, que outro detalhe caprichado dos diqueiros é cobrar muito bem; para valorizar bastante as preciosas gotas de conhecimento que repartirão conosco em sua bondade infinita. Afinal, em geral, essas pessoas que falam nesses cursos caça-trouxas já alcançaram o Nirvana para o qual você também quer e poderá ir. Conseguiram fortunas. Ultrapassaram seus limites. Nesse caso que recebi, são peremptórios. Homens não são completos sem saber seduzir as mulheres, uma coisa assim bem heterossexual. Entre as obviedades que desfiam, indicam que as mulheres procuram homens com humor. Deve ter vindo daí essa onda de stand up que assola os palcos – você ri e tem orgasmos. Estrangeiros adoram vir aqui contar dessas suas ideias fabulosas.

Antes eram só aquelas dezenas de livros de auto-ajuda que invadiram as livrarias e suas capas chamativas, de como ser campeão, o maioral, superar obstáculos, ir da liderança ao controle absoluto. Depois, vieram outros, mais espiritualizados, indicando que cada um deveria procurar seu interior, dominar a mente, contemplar. Aí surgiram os de colorir, contra o stress.

Agora as apresentações são ao vivo. Já tem curso até para ensinar a colorir os tais livrinhos. Estão levando ao pé da letra a máxima que “se conselho fosse bom ninguém dava; cobrava”. Cobram, e caro, para ensinar qualquer coisa, inclusive a fritar bolinhos, equilibrar o ovo no bife a cavalo. O ambiente está fértil para a proliferação de profetas, e isso é assustador. Cria regras, quadradinhos de limite, dizem que você só é certo e bom se fizer isso ou aquilo; caso contrário será pária.

Todo mundo se perguntando o que fazer. Os olhares andam mesmo ansiosos, e os gestos mais nervosos. O clima é de insegurança e de grande dificuldade de planejamento e perspectiva. Se continuar, se perdurar muito tempo ainda, vai é nos deixar malucos e doentes. É uma situação nunca vivida por aqui, sem precedentes, e, portanto, ainda sem manual de dicas de sobrevivência.

Seria um best-seller. Ia ter fila para a inscrição nessas aulas. Pensando bem, vou ver aí se providencio isso.

São Paulo, 2015, pré mês do encosto.

Marli Gonçalves é jornalista – Nós já demos a dica boa, aquela do cai fora enquanto é tempo, mas eles ainda estão querendo saber com quantas panelas se faz um protesto. Aumentam a cada dia as vazias, de grande sonoridade. #ficaadica . Seu e-mail: marli@brickmann.com.br

A profecia de Dilma

 Bola de cristal (Foto: Arquivo Google)

Crise é crise e não adianta chorar pitangas depois que ela eclode. Sabe-se que é preciso achar saídas, por mais dolorosas que elas sejam. Sabe-se também em quais ombros recai a fatura, já materializada nas contas de luz, nos preços dos alimentos, do transporte, dos bens e serviços, no emprego que vai embora.

Nada disso parece comover a presidente Dilma Rousseff.

Ela resiste a cortar gastos no custeio do governo e os dela própria. Em sua recente viagem a Nova York desembolsou U$ 22 mil do contribuinte para hospedar-se por duas noites na suíte Tiffany do Hotel St. Regis, aposentos com 158 m². Mais de R$ 40 mil cada pernoite. Um acinte.

Com luxos dessa ordem, Dilma escancara seu completo descaso aos que estão pagando a conta da crise sem precedentes em que ela meteu o país. E amplia sua rejeição. Continua sem aprender que política se faz com gestos – para os quais ela definitivamente não tem qualquer habilidade – e símbolos.

Erra ainda mais como governante. Não reduz em um milímetro a máquina gigantesca. Não corta um cargo sequer. Gasta muito mais do que arrecada. E gasta mal.

Mas há de se fazer justiça. Nessa seara os erros do governo começaram muito antes.

Antecessor e padrinho de Dilma, o ex Lula dirigiu o país em época de fartura. Desperdiçou dinheiro em caprichos milionários, a exemplo da refinaria Abreu e Lima (PE), em parceria com o bolivariano Hugo Chávez, que lhe deu o cano. Ou ainda no lançamento de foguetes com a Ucrânia, acordo que será desfeito 12 anos depois de lançar pelos ares R$ 500 milhões do Tesouro.

Na Copa do Mundo da Fifa, Lula foi imbatível. Sob a sua batuta, o Brasil iniciou a construção ou reforma de 12 estádios. Custaram R$ 8 bilhões, 285% acima dos R$ 2,8 bilhões fixados em 2007. Quase o montante total do esforço fiscal que o governo estabeleceu agora ao reduzir sua meta para 2015.

De acordo com o Tribunal de Contas da União, a Copa custou R$ 25,5 bilhões. Apenas R$ 7 bilhões foram investidos em mobilidade, e das 26 obras previstas em aeroportos, só 14 foram concluídas.

Embora o país tenha pelo menos 25 empreiteiras de grande porte, de acordo com o faturamento publicado na revista O Empreiteiro, as 10 denunciadas pela Lava-Jato aparecem em todas essas obras e, na maior parte das vezes, com generosos financiamentos do BNDES, que também assegurou a elas expansões na América do Sul. Sempre com o aval de Lula.

A partilha entre o cartel de empreiteiras companheiras pode ter garantindo obras da Copa para todas, mas no caso do Centro de Lançamento de Alcântara, de onde sairiam os foguetes ucranianos, o contrato do consórcio Odebrecht-Camargo Correa foi direto, sem licitação.

Não há receita mais perversa para um país do que um governo tarimbado em incompetência, malversação, roubalheira e incúria. Que gasta a rodo sem ter receita. Que, quando não patrocina, estimula ou faz vistas grossas à corrupção.

Dilma jamais imaginaria que as palavras ditas em 2013, na inauguração da Arena Fonte Nova, em Salvador, seriam proféticas: “Somos um país conhecido como sendo insuperável no campo, mas nós estamos mostrando que somos insuperáveis também fora de campo”.

Na Copa, a seleção brasileira terminou eliminada pela Alemanha por vexamosos 7 x 1. Extra-campo, os resultados são ainda piores.

Motos e Mortes

Muitas campanhas foram feitas em Vargem Grande na clara tentativa de reduzir acidentes com motos. Polícia, promotor, juiz e outras autoridades fizeram e fazem campanha com o intuito de conseguir o intento. Nada surte efeito, as pessoas não acham perigo algum pilotar uma moto sem os equipamentos de segurança. E os acidentes continuam e se multiplicam, bem como os óbitos. Ontem a tarde conversando com o Dr. Nelson, falávamos da necessidade de criarmos mecanismos para acabar de vez com esses tristes episódios, principalmente nos finais de semana. Ainda conversávamos quando um homem em completo estado de embriaguez alcoólica entra no hospital com várias lesões. Motivo, queda de moto. O pior de tudo é que a família ainda tentou nos convencer que fora uma pedra solta que ocasionou a queda do seu ente querido. Não se admite a culpa. Sempre temos que encontra culpados. Inclusive a pedra. Não a pedra do poema de Carlos Drumond. Pela manhã, outra informação. Uma jovem perdeu a vida num acidente de moto. Que notícia triste. Mas nada disso abala as pessoas que diariamente pilotam suas motos, não como meio de transporte, mas como uma arma capaz de abater a si e ao seu próximo. Se verificarmos a estatísticas com acidentes dessa natureza, os dados nos chamam a atenção e são bastante preocupantes. Mas para muitos, isso pouco importa. Pode ser até a próxima vítima, Mas de que adianta. Morrendo não ver nada, e muito menos poderá voltar atrás. Até quando!

O sorriso do ex-mãos de tesoura.

Coluna Carlos Brickmann
– ATENÇÃO: por favor, NÃO PUBLICAR antes – Coluna EXCLUSIVA para a Edição dos jornais de DOMINGO, 26 DE JULHO 2015.
Lembrando uma ótima piada, o especialista explicava que a hiena comia mal, dormia mal, mantinha relações sexuais uma vez por ano. Um espectador perguntou: “De que ri o animalzinho?” Joaquim Levy achava essencial cortar quase R$ 70 bilhões de despesas (mas o Governo não cortou nenhum dos 113.540 funcionários sem concurso, nem dos 200 mil terceirizados; o Congresso criou despesas novas para a Previdência; o Judiciário tenta um aumentão); e acreditava que o Tesouro deveria gerar superávit primário de 1,1% do PIB, para evitar que a dívida pública subisse mais (obteve 0,15%, e olhe lá, se tudo der certo). Mas Joaquim Levy continua no cargo, sempre sorridente. Estar ministro deve ser ótimo.

Joaquim Levy, o implacável Mãos de Tesoura, não era tão implacável assim. A meta de superávit, que ele fixara em R$ 66,7 bilhões (com precisão de algarismos depois da vírgula), ficou em R$ 8,5 bilhões. Pode virar déficit. Merreca. Nada comparável a ter Excelência antes do nome e carro com chapa de bronze.

Na verdade, a farra de gastos começou antes de Dilma, de Lula, antes até de Fernando Henrique. Como demonstraram os professores Samuel Pessoa, Marcos Lisboa e Mansueto Almeida, a despesa pública no Brasil sobe mais do que a receita desde 1991. Não foi Joaquim Levy que elevou as despesas. Mas, com o risco de perda do grau de investimento (que joga o dólar para cima e faz com que os juros pagos pelo Brasil no Exterior se multipliquem), caberia a ele a tarefa de começar a botar ordem na casa. E não é que parecia o homem certo para isso?

Nova pergunta

Talvez a questão inicial seja errada. Talvez se deva perguntar de quem ele ri.

O poço sem fundo

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, certamente tem muitos defeitos. Mas burro não é; e tem fama de estudar os assuntos antes de falar sobre eles. Cunha faz oposição ao Governo, mas não se arriscaria a uma bobagem que em pouco tempo se tornaria óbvia. Diz que não vai haver superávit, não: haverá déficit.

Déficit leva o país a perder o grau de investimento – a fama de bom pagador.

O fundo do poço

Mas o caro leitor deve tranquilizar-se: segundo o ministro Joaquim Levy, a situação “parou de piorar”. Na opinião de Sua Excelência, portanto, já chegamos ao fundo do poço.

Agora é torcer para que o Governo não jogue terra em cima.

Mas a festa continua

Todos concordam: é preciso conter despesas oficiais, certo?

1 – O Senado aprovou a criação de 200 novos municípios. Mais prefeitos, vereadores, assessores. No total, calcula-se algo como 15 mil gulosas boquinhas.

2 – A Câmara Federal reservou R$ 789.800,00 para alugar carros que servirão aos deputados neste segundo semestre. Motoristas e combustível à parte.

3 – A Assembleia Legislativa de São Paulo abriu licitação para comprar 56 carros, que servirão a Suas Excelências. Os carros serão obrigatoriamente sedãs, com transmissão automática e ar condicionado, quatro portas, motor de no mínimo l.800 cm³ e 140 cavalos. E custarão pouco menos de R$ 5 milhões de dinheiro público. A abertura dos envelopes da licitação está prevista para amanhã.

4 – Twitter do senador Roberto Requião, do PMDB paranaense: “Departamento jurídico de Itaipu contratou filho de Cedraz para defender a usina na questão de ser ou não fiscalizada pelo TCU. PQP!” Refere-se ao advogado Tiago Cedraz, filho do presidente do TCU, Aroldo Cedraz.

5 – Mas, em 2 de junho, o psicólogo e ex-deputado Maurício Requião, irmão do senador Requião, foi nomeado por Dilma para o Conselho de Itaipu. São R$ 20.800,00 por mês para participar de seis reuniões por ano.

6 – Ao lado de Maurício Requião, está no Conselho de Itaipu o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto. Foi nomeado em 2003 pelo presidente Lula, e de lá para cá recebeu sucessivos mandatos. O atual termina em maio de 2016. Desde 2010 Vaccari enfrenta processo por acusações de desvio de recursos da Bancoop, cooperativa habitacional dos bancários, que presidiu. De acordo com o Ministério Público, responde por estelionato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Mesmo assim, foi reconduzido em 2012.

Neste momento, por motivos de força maior, não pode comparecer às reuniões.

Tudo tem motivo

É por essas e por outras que a popularidade de Dilma, que já está abaixo da inflação, caminha rapidamente na direção de ficar menor que o pibinho de 2015.

Onde há crescimento

Um grande jornal impresso noticiou discretamente o crescimento do número de meses contido em cada ano (deve ser algum viés contra o Governo, este de não dar destaque à expansão em algum setor). Diz a reportagem, sobre a compra do jornal britânico Financial Times para o grupo japonês Nikkei, que a transação ainda tem de passar pelo cumprimento das formalidades legais. O negócio será concluído, segundo a notícia, apenas “no quarto quadrimestre de 2015”.

Como nunca dantes neste país, já em 2015 haverá pelo menos quatro quadrimestres, ou 16 meses. Os funcionários do jornal deveriam receber 16 salários.

carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann

DILMA AGORA SE FAZ DE HUMILDE PARA TENTAR SALVAR O MANDATO

JORGE OLIVEIRA

Brasília – O nariz empinado e a prepotência da Dilma deram lugar a uma falsa humildade agora que o barco está afundando. Acostumada a tratar seus subalternos com truculência, deselegância e desrespeito, para salvar sua pele, ela decidiu que vai chamar os governadores para uma reunião na quinta-feira. Quer firmar com eles um pacto de governabilidade depois que o país foi para o fundo do poço com a inflação alta, o custo de vida sufocante e o desemprego subindo a taxas estratosférica. Dilma cultiva o hábito da arrogância: humilha ministros, assessores, governadores e até um simples garçom passa pelo constrangimento de reprimenda quando serve o café fora do ponto.

 

A presidente tenta de todas as formas se manter no poder e, no comando do barco à deriva, não sabe retomar o leme da embarcação. O que ela não entendeu até agora é que os brasileiros não a querem mais à frente do país, como mostraram as últimas pesquisas. Por elas, nunca na história desse país um presidente esteve com tão baixo índice de aprovação. Mais de 92% da população dizem não a sua administração. Com essa desaprovação, Dilma corre o risco de ser não só apenas vaiada, como já vem ocorrendo, mas também enxovalhada pelo povo descontente com o  seu governo.

 

É para tentar minimizar esse quadro caótico e assustador que a presidente quer juntar os governadores para uma conversa tête-à-tête.  Essas reuniões de políticos e empresários com a Dilma em Brasília já começaram a entrar para o anedotário. Muitos deixam o encontro mais desorientados ainda com a conversa dela sem pé nem cabeça sobre a conjuntura econômica, social e política do país.  Um desses participantes confidenciou que a Dilma não consegue finalizar uma proposta pela dificuldade que tem em se fazer compreender. Até que ela tenta raciocinar com lógica, diz essa fonte, mas algo inexplicável tumultua seu pensamento, daí as besteiras que fala e se espalham nas redes sociais.

 

A presidente vive momentos de profundo isolamento. Cercada por auxiliares envolvidos com a operação Lava-Jato, a exemplo do seu ministro da Comunicação Social, Edson Silva, o Edinho, que recebeu quase 8 milhões de reais do dinheiro roubado da Petrobrás para a sua campanha, Dilma  não tem propostas reais para apresentar aos governadores. Mais uma vez vai jogar para a plateia e culpá-los depois pelo insucesso da tentativa do plano da governabilidade  que certamente não ocorrerá porque o problema maior não é o sofá mas o seu dono.

 

Ela sabe que a crise econômica e social é de sua responsabilidade. À frente do governo, quando o país ainda vivia bons momentos com emprego e inflação baixa, não ouvia ninguém.  Acreditava de verdade que realmente era uma “gerentona” competente como Lula a vendeu à população. O tempo mostrou que se trata de uma gestora incapaz e incompetente que tenta impor no grito  suas vontades como se os servidores fossem seus vassalos. Aprendeu com Lula a soltar palavrões e até xingar com impropérios adversários e aliados quando suas ordens são contrariadas, como contam vários de seus auxiliares que temem se aproximar dela nos momentos de fúria.

 

É por causa desse temperamento intempestivo e desrespeitoso que a Dilma está sem interlocutor, isolada e distanciada dos seus principais assessores que tremem só em saber que vão despachar com ela. Alguns ministros nem são chamados para audiência, como é o caso do Henrique Alves, do Turismo,  que ela foi obrigada a engolir por imposição de Eduardo Cunha, presidente da Câmara.

 

Ora, é de se perguntar: como uma pessoa pode dirigir um país com esse comportamento atroz  e assustador? Por que alguém que já demonstrou tanta inaptidão no comando da nação ainda teima em permanecer no cargo mesmo sabendo que mais de 90% da população desprezam o seu governo?

 

As respostas para essas perguntas vão às ruas no dia 16 de agosto.

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A CRISE E A ESPERANÇA, QUE PRECISA CONTINUAR EXISTINDO

SANDRA STARLING

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos, no dia 15 último, o pesquisador Pablo Ortellado faz a mais brilhante análise que pude ler sobre a crise brasileira. Ao contrário de alguns, que preferem manter o foco na crise mundial, Ortellado ilumina o que há de mais significativo no caso brasileiro. Segundo ele, a formação, nos anos 80 do século passado, do Partido dos Trabalhadores conseguiu fazer convergir para essa sigla personalidades, movimentos sociais, inclusive o sindical, a Igreja Católica, com sua belíssima experiência com as comunidades eclesiais de base, e praticamente todas as organizações marxistas de variada tendência que lutavam contra a ditadura militar.
Intelectuais do porte de Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Hollanda, Antonio Candido, Marilena Chauí, para citar apenas esses, contribuíram com a força de suas mentes privilegiadas, somando esses conhecimentos com a democracia de base, em que os “de baixo” efetivamente tinham sempre a última palavra. Havia líderes de trabalhadores rurais, ambientalistas como Chico Mendes, sindicalistas como Lula, João Paulo Pires Vasconcelos e Olívio Dutra. Antigos militantes, como Apolônio de Carvalho e José Ibrahim. Estrelas que despontavam nos movimentos de favela, como Benedita da Silva. Vítimas da ditadura militar, como Manoel da Conceição, de Pernambuco, nossa inesquecível d. Helena Grecco e milhares de anônimos militantes, barulhentos em suas manifestações e entusiasmados com a maneira distinta de fazer política.

Eu vi tudo isso acontecer. Não havia chefes que impusessem suas vontades à vontade de viver uma experiência nova de produzir novos caminhos na política brasileira. José Dirceu, Vladimir Palmeira, Luiz Gushiken… todos tinham a mesma força e convenciam ou não os delegados em encontros memoráveis.

Aí residiram a força e a beleza daquele partido.

A institucionalidade a tudo isso absorveu. Até que, diante da “Carta aos Brasileiros”, de 2002, com que Lula logrou vencer o medo e fazer-se presidente do Brasil, esse documento, por muitos tido como manobra tática, acabou por acabar com o sonho de todos os que lá se agrupavam. Pouco a pouco foram aparecendo os melhores, os que sabiam mais que outros, os que mandavam mais que todos.

Ortellado faz uma previsão sombria: serão necessários mais 20 ou 30 anos até que surja algo assim. E aposta que uma sociedade civil organizada, mas não subjugada a partidos, governos ou líderes carismáticos, possa fazer abreviar esse parto.

De minha parte, eu apenas acrescentaria que não foi só o PT que se perdeu. Também o PSDB, que surgiu lutando contra o fisiologismo que começava a se instalar no antigo MDB. E, mesmo nas fileiras desse PMDB, quem não se recorda de nomes combativos que davam a tônica também representando outros excluídos?

Diante dos arremedos de partido que hoje vemos atuar nos espaços institucionais ou no que resta de movimento social organizado, a saudade bate forte. Mas a esperança precisa continuar existindo.

 

Sandra Starling foi deputada federal pelo PT-MG
Artigo publicado originalmente no jornal O Tempo

Executivo da OAS se oferece para contar à Lava Jato segredos devastadores sobre Lula

Em troca de benefícios legais, Léo Pinheiro promete revelar, em delação premiada, o que viu, ouviu e fez nos anos em que compartilhou da intimidade do ex-presidente

Por: Robson Bonin, com reportagem de Adriano Ceolin – Atualizado em 

Capa VEJA - Edição 2436
(VEJA.com/VEJA)

Léo e Lula são bons amigos. Mais do que por amizade, eles se uniram por interesses comuns. Léo era operador da empreiteira OAS em Brasília. Lula era presidente do Brasil e operado pela OAS. Na linguagem dos arranjos de poder baseados na troca de favores, operar significa, em bom português, comprar. Agora operador e operado enfrentam circunstâncias amargas. O operador esteve há até pouco tempo preso em uma penitenciária em Curitiba. Em prisão domiciliar, continua enterrado até o pescoço em suspeitas de crimes que podem levá-lo a cumprir pena de dezenas de anos de reclusão. O operado está assustado, mas em liberdade. Em breve, Léo, o operador, vai relatar ao Ministério Público Federal os detalhes de sua simbiótica convivência com Lula, o operado. Agora o ganho de um significará a ruína do outro. Léo quer se valer da lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff, a delação premiada, para reduzir drasticamente sua pena em troca de informações sobre a participação de Lula no petrolão, o gigantesco esquema de corrupção armado na Petrobras para financiar o PT e outros partidos da base aliada do governo.

Por meio do mecanismo das delações premiadas de donos e altos executivos de empreiteiras, os procuradores já obtiveram indícios que podem levar à condenação de dois ex-ministros da era lulista, Antonio Palocci e José Dirceu. Delatores premiados relataram operações que põem em dúvida até mesmo a santidade dos recursos doados às campanhas presidenciais de Dilma Rousseff em 2010 e 2014 e à de Lula em 2006. As informações prestadas permitiram a procuradores e delegados desenhar com precisão inédita na história judicial brasileira o funcionamento do esquema de sangria de dinheiro da Petrobras com o objetivo de financiar a manutenção do grupo político petista no poder.

É nessa teia finamente tecida pelos procuradores da Operação Lava-Jato que Léo e Lula se encontram. Amigo e confidente de Lula, o ex-presidente da construtora OAS Léo Pinheiro autorizou seus advogados a negociar com o Ministério Público Federal um acordo de colaboração. As conversas estão em curso e o cardápio sobre a mesa. Com medo de voltar à cadeia, depois de passar seis meses preso em Curitiba, Pinheiro prometeu fornecer provas de que Lula patrocinou o esquema de corrupção na Petrobras, exatamente como afirmara o doleiro Alberto Youssef em depoimento no ano passado. O executivo da OAS se dispôs a explicar como o ex-presidente se beneficiou fartamente da farra do dinheiro público roubado da Petrobras.

Lula dá sinais de estar perto de jogar a toalha

 Jogando a toalha (Foto: Arquivo Google)

Ricardo Noblat

Foi um Lula esgotado, aborrecido, impaciente, sem imaginação que se apresentou ontem à noite para cerca de 200 pessoas reunidas na sede do Sindicato dos Bancários do ABC, na grande São Paulo.

Sacou velharias do fundo da memória. Do tipo: “Estou de saco cheio e cansado das mentiras e safadezas”. Ou do tipo: “Estou cansado de agressões à primeira mulher a governar o país”.

Como se Dilma, pelo fato de ser mulher, estar sendo agredida. Ou como se Dilma, pelo fato de ser mulher, não poder ser criticada. “Não tem pessoa com caráter mais forte nesse país do que ela”.

Há pouco mais de um mês, em conversa com religiosos no Instituto Lula, o ex-presidente bateu em Dilma por ela fazer “um governo de surdos”. Disse que ela estava “no volume morto”.

Quando um político não sabe o que dizer, costuma se referir à perseguição movida pelos nazistas na Alemanha aos judeus antes e durante a 2ª. Guerra Mundial. Foi o que Lula fez:

– O que a gente vê na televisão parece os nazistas criminalizando o povo judeu, os romanos criminalizando o povo cristão, os fascistas criminalizando os italianos. Sei que é difícil para parte da elite brasileira aceitar certas coisas.

O  que nazistas, judeus, romanos, cristãos, fascistas e italianos têm a ver com as crises ora enfrentadas pelo Brasil – a política, a econômica e a ética? Lula não explicou.

Seu abatimento, segundo confidência de amigos, decorria das notícias que haviam lhe chegado a respeito da reportagem de capa da revista VEJA deste fim de semana.

Segundo a VEJA, o empresário Léo Pinheiro, ex-operador da construtora OAS em Brasília, começou a negociar com a Justiça a delação premiada

Ninguém mais do que Léo sabe como Lula enriqueceu depois de chegar à presidência da República. Foi ele que reformou de graça o apartamento de Lula no Guarujá e seu sítio em Atibaia, São Paulo.

Se, de fato, Léo abrir o bico, Lula correrá o risco de ser engolido pela lama provocada pela Operação Lava Jato.

Em certo momento do seu discurso, Lula cometeu uma frase sem sentido: “Não é porque uma criança está com febre que a gente vai enterrar. Mas foi em frente. Tocou de raspão na crise econômica:

– Temos que dizer para todas as pessoas que acham que o mundo vai acabar, que não há momento na história desse país que o Brasil não tenha passado por uma crise.

Sim, e daí?

Para finalmente arrematar:

– Quem vem apostando no fracasso deste País vai quebrar a cara.

Lula não é mais aquele. O que é que se faz com ele?

PARA ONDE CAMINHA O BRASIL?

NEY LOPES

Uma indagação sempre presente no atual momento político e econômico: para onde caminha o Brasil?

Difícil uma previsão, porém não impossível.

Poderá, por exemplo, voltar ao debate, à convocação de uma constituinte exclusiva para aprovar as reformas inadiáveis. A eficácia dessa alternativa dependeria da eleição de uma Assembleia Constituinte unicameral, cujos eleitos se tornassem inelegíveis, no mínimo por um período legislativo, após a conclusão dos trabalhos. Isso evitaria a aprovação dos tradicionais “pacotes de bondades”.

Funcionaria como órgão consultivo da Constituinte, um Comitê da Sociedade Civil, com representações sociais, oferecendo subsídios. Concluída a Constituição, ela seria submetida a um referendum popular, para posterior promulgação. Seria, na verdade, um meio de passar o Brasil a limpo.

É bom recordar que em 1999, o então presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu uma Assembleia Constituinte restrita para discutir as reformas tributárias, política e do Judiciário. Certamente, as discussões sobre sexo dos anjos, sempre em busca de refletores, farão surgir resistências a essa via legislativa e o consenso seja mais fácil numa Constituinte originária e não exclusiva.

Outra saída, aliás, já suscitada, seria a implantação do parlamentarismo, o que já aconteceu no país, no império e na república, como forma de resolver impasses institucionais, semelhantes às dificuldades atuais que atravessamos.

O Parlamentarismo estabelece a primazia do Parlamento no governo, liderado por um primeiro-ministro, eleito por maioria parlamentar.

Brincar com fogo dá causa a mudanças, nem sempre desejadas.

A verdade é que se agrava dia a dia a crise política e econômica. Enquanto isso, o Congresso Nacional está em férias, sendo o corresponsável por esse quadro caótico.

Não se nega que a presidente Dilma deu causa ao desastre econômico, com o aumento exorbitante dos gastos públicos.

Por outro lado, o Congresso cria obstáculos e dificulta as soluções.

A estratégia de deputados e senadores é agravar a crise e assim contribuir para a queda da presidente Dilma.

Se houver fundamento para o impeachment, que ele seja decretado.

O que não pode é o Brasil transformar-se em massa de manobra política, com pressões e chantagens descabidas. O povo mais humilde paga essa conta, enquanto as cúpulas se “arrumam” para proteger interesses escusos.

Se o ajuste fiscal defendido pelo ministro Joaquim Levy tivesse sido aprovado com urgência, certamente as últimas medidas anunciadas na quarta feira seriam desnecessárias e a economia já estaria evoluindo.

O Congresso (oposição e parte do governo) preferiu mutilar o “pacote fiscal”, abrindo o “saco de bondades”, ao usar o discurso demagógico de aumento irresponsável das despesas e a eliminação o fator previdenciário, quando essa alternativa foi sugerida e aprovada pelo PSDB, PMDB, DEM … no governo FHC.

Sabe-se que o aposentado é profundamente injustiçado. A única forma de ajudá-lo a recuperar as perdas seria agir com responsabilidade fiscal. Por exemplo: aprovar uma lei que antecipadamente assegurasse reajustes de pensões e proventos, na proporção do aumento do PIB, no período pós-ajuste.

Não se trata de defender Dilma Rousseff, que realmente criou as situações para a crise, na ânsia de reeleger-se. Trata-se de ser a favor do Brasil dos nossos filhos e netos. Quem colabora para o caos em busca de votos, cria as condições para a explosão social amanhã. Aqueles que aplaudem hoje, ao calor das emoções, irão condená-los nas urnas no futuro.

O governo Dilma passará, mais cedo ou mais tarde.

O que não passará é a permanência da “farra” de gastos públicos, levando a nação ao desemprego em massa e ao desabastecimento.

Só resta rogar, que Deus proteja o Brasil, mais uma vez!

 

Ney Lopes – ex-deputado federal (sem partido); procurador federal, ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, jornalista e professor de Direito Constitucional. – nl@neylopes.com.br

“Passa-se o ponto”

Por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa*
… Engraçado, viver é caro e muitas vezes difícil, mas continua a ser muito popular…
Dê uma volta em qualquer bairro do Rio que você verá placas anunciando a venda, o aluguel, a transferência do ponto comercial: são lojistas angustiados e que não aguentam mais o arrocho da economia e o sumiço dos clientes.

Será que o ministro Levy não pensou, nem por um segundo sequer, que isso ia acabar acontecendo? Creio que não, parece que ele ficou sinceramente surpreso ao perceber que a grande maioria dos brasileiros estava desesperançada e não acreditava na política econômica que ele vendia com aquele aplomb que lhe é peculiar.

(Aliás, por falar na pessoa do ministro, não lembro quando, nem onde, li que Joaquim Levy tem o hábito de se fechar em sua sala para trabalhar ao som do melhor jazz. Bom gosto o do ministro. E aí, bolei um roteirinho: ele começa a seção com Billie Holiday cantando Speak Low, o clássico de Kurt Weil e Ogden Nash, para não esquecer que falar baixinho é um bom golpe: faz o ouvinte se esforçar para prestar atenção!).

… “O desemprego em níveis alarmantes e sem cara de ser revertido tão cedo; os estoques mofando nas prateleiras ou nos pátios; a queda da receita. O PIB magrinho, fraquinho, com cara de bem doente. O Tesouro, coitadinho, empobrecendo a cada dia. Será que o ministro Levy não desconfiou que isso poderia acontecer? “…

Ele fala baixinho e com toda certeza é muito ouvido. Afinal, de suas decisões, depende muito a nossa vida. Infelizmente, ainda não acertou uma tacada sequer…

O desemprego em níveis alarmantes e sem cara de ser revertido tão cedo; os estoques mofando nas prateleiras ou nos pátios; a queda da receita. O PIB magrinho, fraquinho, com cara de bem doente. O Tesouro, coitadinho, empobrecendo a cada dia. Será que o ministro Levy não desconfiou que isso poderia acontecer?

Será que ele achou que essa austeridade artificial e brutal ia fazer bem ao Brasil e aos brasileiros? Sobretudo no meio do caos político em que estamos, Executivo e Legislativo chafurdando na “incompetência, arrogância e corrupção”, como disse com todas as letras o Financial Times em seu editorial?

Para o grande jornal inglês a magia do país foi quebrada e agora vemos que tudo não passou de um conto de terror. (Cá pra nós, atores bons para fazer um filme com esse roteiro, nós até temos).

Um economista americano, Laurence J. Peter, que viveu entre 1919/1988, é autor de uma frase que eu considero perfeita: “Um economista é um especialista que saberá amanhã porque as coisas que ele predisse ontem não aconteceram hoje”. É ou não é uma verdade verdadeira? A mim me parece que é assim, que todos os nossos ministros da Fazenda estão até hoje sem saber por que suas tão ardilosas projeções não tiveram sucesso. Com talvez uma exceção: Pedro Malan. Pena que o PSDB tenha perdido a chance de colocá-lo no Planalto…

Mas não adianta chorar sobre o leite derramado, não é? Nosso ministro atual, que assumiu com a fama de homem que não aceitaria ser desprestigiado, agora se ocupa com entrevistas tentando justificar o ajuste fiscal que de essencial passou a ser uma reles curva na travessia que ele e sua chefe acreditam será completada no semestre que vem.

Parece que o ministro da Defesa, o petista Jaques Wagner, acredita nisso, pois ele discorda do FT e acredita que estamos mesmo no início de uma história de fadas. Quem é a fada madrinha? Não sei. Sei que não há uma abóbora grande o suficiente para caber toda a brava bancada coligada!

Assim como sei que não vai haver impeachment da presidente. Não há motivos. Sua popularidade rasteira não é motivo para um impedimento legal. A austeridade, dura e perversa, nos faz sofrer, mas não nos dá o direito de sair da legalidade.

Impichados estamos nós, o povo brasileiro. Os justos pagando pelos pecadores, quem mandou elegermos dona Dilma?

“Maioridade penal, uma ideia menor”.

 Por Antonio Claudio Mariz de Oliveira*
…um dia eles sairão das nossas cadeias, serão egressos do nosso abominável sistema penitenciário e aí estarão aptos a cometer ainda maiores atrocidades contra nós, que os encarceramos. Esse cruel e burro círculo vicioso não vai terminar nunca? Prendemos, soltamos e nos tornamos de novo vítimas…
Artigo publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, edição de 22 de junho de 2015

A errônea análise do crime exclusivamente sob o prisma dos seus efeitos, sem nenhuma consideração pelos fatores que o desencadeiam, tem como exemplo eloquente a questão do menor abandonado, que, com o passar dos anos, se tornou infrator e, depois dos 18 anos, um criminoso.

Tal questão jamais foi vista pelas elites e pelos governos como um problema social e humanitário, a exigir de todos empenho e solidariedade. Nada foi feito, e as crianças cresceram ao nosso redor sem que nós dispensássemos a elas um mínimo de atenção, mas, ao contrário, nossa atitude sempre foi de desinteresse e de omissão.

Demos-lhes as costas, ao invés de saúde, educação, teto e afeto. A presença desses menores sempre nos causou certa repulsa e medo. A atitude concreta adotada sempre foi a de fechar o vidro dos carros, para evitar qualquer tipo de contato. Agora, após anos de desprezo, foi encontrada a solução cômoda, ineficiente e predatória da prisão.

Prenderemos o maior de 16 anos e deixaremos como está o menor carente, até que ele, com aquela idade, se torne um criminoso. Quando isso ocorrer, também o prenderemos.

Esquece-se, no entanto, de que um dia eles sairão das nossas cadeias, serão egressos do nosso abominável sistema penitenciário e aí estarão aptos a cometer ainda maiores atrocidades contra nós, que os encarceramos. Esse cruel e burro círculo vicioso não vai terminar nunca? Prendemos, soltamos e nos tornamos de novo vítimas de nossa conduta, de nossa irresponsável e autofágica conduta. Estupidez pura.

É óbvio que não deveremos deixar o menor infrator impune. No entanto, vamos reagir contra o crime do menor (infração) com um mínimo de inteligência, se não por um dever social, de solidariedade e de humanismo, pelo menos por egoísmo e autopreservação.

… Lembre-se de que o homem de hoje, o homem midiático, perdeu o senso crítico, pouco raciocina. A imagem divulgada não passa pela razão, porque vai direto à emoção, provocando amor ou ódio. No caso do menor infrator, provoca o ódio”…

Ninguém duvide de que o sistema prisional brasileiro não evita o crime, ao contrário, ele o estimula. Não há quem não saiba que ele age no sentido contrário dos interesses da própria sociedade, pois não recupera, mas atua como um eficiente fator criminógeno.

Não se desconhece que um coro retumbante se ergueu do seio da sociedade clamando pela redução da maioridade penal. Esse clamor é emocional e não provém da análise das causas do fenômeno criminal e das consequências da medida apregoada. Trata-se de uma grita irracional, impulsionada e avolumada por uma cultura punitiva divulgada pela mídia e incrustada no íntimo das pessoas, sem maiores indagações e reflexões.

Lembre-se de que o homem de hoje, o homem midiático, perdeu o senso crítico, pouco raciocina. A imagem divulgada não passa pela razão, porque vai direto à emoção, provocando amor ou ódio. No caso do menor infrator, provoca o ódio.

Prega-se a diminuição da idade da responsabilidade penal porque os maiores de 16 anos estão praticando infrações.

Assim, cabe uma indagação: e os de 15 anos, de 14 anos ou os de 13 anos que também as praticam?

Se a solução é a prisão, por que não encarcerar todo e qualquer infrator menor, considerando-o criminoso?

Uma matéria do dia 15 de julho do jornal O Estado de S. Paulo mostrou que menores de 12 anos a 17 anos estão cometendo mais delitos do que os de 16 a 18 anos. Portanto, tendo a cadeia como solução, deverão ser colocados nas prisões, junto com experientes criminosos, os menores a partir dos 12 anos.

Bem se vê que a solução da diminuição da idade da responsabilidade penal não passa de demagogia, pura insensatez, ausência de seriedade, verdadeira cortina de fumaça para iludir a sociedade. Basta prender e nada mais deverá ser feito.

Pergunta-se: há quem creia em que os menores serão recuperados no cárcere? Ou, ao contrário, a prisão estimulará o aumento de sua periculosidade, e irá prepará-lo adequadamente para trilhar com eficiência e êxito os caminhos do crime?

Não se espantem se surgir uma corrente que pregue o isolamento, em lugares distantes, dos menores considerados potencialmente perigosos, em face do meio em que vivem, das pessoas com as quais convivem e da “cara” que possuem. Essa corrente terá como objetivo riscar esses menores dos nossos mapas urbanos…

Deve-se notar que nós estamos nos preocupando com o menor abandonado apenas e na medida em que ele nos está agredindo, pois, estivesse em silêncio, amargando as suas carências debaixo dos viadutos, sem nos incomodar, continuariam a ter o nosso desprezo. A sociedade brasileira não soube ou não quis criar uma cumplicidade entre os seus membros para cuidar do menor carente. Ocorreu, sim, a cumplicidade com o abandono.

A propósito, significativos porcentuais de infratores (total de 23 mil no País, em 2013) têm algum tipo de carência social, que certamente contribuiu para a prática delituosa. Assim, 51% não frequentam a escola; 49% não trabalhavam quando foram recolhidos; e 66% pertencem às famílias de extrema pobreza (dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, divulgados pelo jornal Valor Econômico de 13/7).

Vamos fazer, agora, o que não fizemos durante séculos. Cuidar do menor. Recolher o infrator, porém tornar o recolhimento não o da cadeia, mas o de instituições apropriadas, algo construtivo, edificante. Ampliar o prazo de recolhimento previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e utilizá-lo como medida pedagógica e humanitária, para suprir as carências, que vão da educação ao afeto, passando pela saúde, pela assistência psicológica e pela profissionalização.

Vamos estender as mãos para o menor infrator, para que ele não volte a delinquir e para que o menor abandonado não se torne infrator.

Digamos não à prisão, pois a prisão de hoje leva ao crime de amanhã.