E se a turma das ruas insistir no Fora Todos?

Por Helena Chagas

No momento, a proposta de convocar novas eleições presidenciais tem a clara função de enfraquecer o impeachment. Não é ruim, para o Planalto, que caciques peemedebistas como Renan Calheiros e Valdir Raupp venham a público defendê-la, contribuindo para desgastar a alternativa Michel Temer em seu próprio partido e dando discurso àqueles que querem votar contra o impeachment mas têm vergonha de assumir um impopular governismo a esta altura. Não por acaso, Temer quebrou um silêncio de semanas e veio a público criticar a proposta.

Na real, a maior parte do establishment político não está hoje levando muito a sério a hipótese de antecipação do pleito de 2018. Mas corre o risco de brincar com fogo e se queimar, ou, no mínimo, acabar com uma enorme batata quente nas mãos. E se a turma das ruas pegar gosto pela idéia?

Renan e Raupp, quando falam do assunto e incluem os mandatos de deputados e senadores no jogo, sabem que aprovar a necessária emenda constitucional, com três quintos da Câmara e do Senado, é missão quase impossível. Complicam ainda mais o assunto inventando um plebiscito ou referendo que demandaria meses para ser organizado. Todo mundo sabe que são quase nulas as chances de o Congresso, que não consegue aprovar nem uma reforminha eleitoral básica, cassar seu próprio mandato, encurtando-o.

Sabe disso também o governo. Não por acaso,  a presidente Dilma mandou os jornalistas conversarem primeiro com deputados e senadores sobre antecipar o fim de seus mandatos para  depois falar do assunto com ela. O Planalto faz vista grossa à movimentação nesses dias que antecedem a votação do impeachment porque sabe que o beneficia. “É uma coisa bem menos agressiva do que o impeachment”, definiu Jaques Wagner, embora descartando a iniciativa.

O problema do governo – de qualquer governo que venha a assumir ou permanecer – é que a idéia de zerar tudo fazendo novas eleições parece estar crescendo, sobretudo fora de Brasília. Há boas chances de encorpar, dado o grau de insatisfação da maioria dos brasileiros com o governo, o Congresso e os políticos de modo geral. O brasileiro está a cada dia mais insatisfeito com a vida e, com certa razão, joga a culpa de tudo naquilo que chamamos de poder político, que ora pode ter a cara de Dilma, ora a de Michel, ou a de Lula, a de Cunha ou até a de Aécio Neves.

Nos últimos dias, o slogan “Fora todos” pipocou na Internet e nas ruas. O movimento, embora não organizado, chamou a atenção em manifestação paulistana na semana passada, promovida pelos que não são nem pró e nem contra o impeachment: “Fora Dilma, Temer, Cunha e Aécio”, estampavam as faixas. Lema que pode pegar, pois, tirando os extremos que torcem para um e outro lados, a maioria dos brasileiros quer mesmo é se livrar dessa turma toda.

É ilusão imaginar que a crise estará resolvida com a votação do impeachment, seja quem for o vencedor. Depois que tudo acabar, Dilma, ou Temer, ainda padecerá por meses com a instabilidade na economia, a impopularidade, as dificuldades de aprovar medidas no Congresso. Governabilidade não é como remédio, que se aplica com injeção e tem efeito logo. Terá que ser conquistada, ou reconquistada, dependendo de quem for o inquilino do terceiro andar do Planalto.

Há tempo e clima, portanto, para que a semente do “Fora Todos” floresça, se não pela via congressual, pela porta do Judiciário. Não por acaso, a sempre candidata Marina Silva, que havia tomado chá de sumiço, reemergiu esta semana com o discurso afiadinho: pressionar pela destituição da presidente e do vice pelo Tribunal Superior Eleitoral no processo em que a chapa é acusada de ter recebido na campanha de 2014 recursos desviados da Petrobras – o que está cada vez mais difícil negar.

Em condições normais de temperatura e pressão, esse processo, numa corte sazonal e meio apagada, dificilmente desembocaria na cassação da chapa presidencial. Mas não vivemos tempos normais, e tanto Dilma, se for salva do impeachment, quanto Michel, que assumiria sem grande força política, correm o risco de serem atropelados pelo TSE se não exibirem rapidamente condições de governabilidade.

A reboque de um grande clamor popular, não se deve, portanto, descartar a solução TSE, que convocaria novas eleições – aí só para presidente – em 90 dias.

Golpe? Em tese, não. Dizer que eleição é golpe seria tremenda contradição. Mas pode virar. Se o TSE não decidir até 31 de dezembro deste ano, nos primeiros dois anos do mandato presidencial, a eleição seria indireta, segundo manda a Constituição.

O presidente da Câmara – que, por incrível que pareça, ainda é Eduardo Cunha – convocaria e, possivelmente, presidiria a eleição do presidente da República, podendo até se candidatar. Ele ou qualquer outro parlamentar acusado na Lava Jato, por exemplo.

Não se tem idéia das regras porque desde 1985, quando foi enterrado o malfadado colégio eleitoral da ditadura militar, não se tem uma eleição presidencial indireta no país. Mas é certo que os eleitores seriam, sim, os atuais 513 deputados e 81 senadores. Pode até estar escrito na Constituição. Mas vai ter cheiro de golpe.

Povo Brasileiro (Foto: Arquivo Google)

 

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