Olho gordo

Patuá (Foto: Arquivo Google)

Por Mary Zaidan

Tema único na agenda, na cabeça e no discurso da presidente Dilma Rousseff, o impeachment tem acentuado o distúrbio bipolar que desde sempre acomete o seu governo. Nesta última semana, os altos e baixos que até pouco tempo a psiquiatria classificava como maníaco-depressivos oscilaram com velocidade estonteante. Como espasmos, Dilma, Lula e os seus cantaram vitórias e amargaram derrotas sucessivas. E não conseguiram debelar os surtos.

 

A insistência de Dilma em escapar da realidade, conferindo ao seu governo e a si méritos imaginários, parece se encaixar no descritivo de psicopatias graves.

Na sexta-feira, ao entregar moradias do Minha Casa, Minha Vida, Dilma garantiu que fazia um enorme esforço para continuar os programas sociais na crise, eximindo-se da responsabilidade de ter degringolado a economia. Mais um pouco, diria que a culpa era de FHC.

Depois de repisar a tese de que impedimento constitucional é golpe, acrescida agora do adendo de que ela não cometeu crime de responsabilidade, Dilma reeditou a lengalenga de que seus opositores apostam no quanto pior melhor. Mas foi além: acusou-os de botar olho gordo.

Olho gordo significa mau-olhado ou inveja. Na primeira acepção é pouco provável que opositores estejam fazendo reza brava para afastar a presidente. Até porque têm apostas mais consistentes – processos de impeachment em curso no Parlamento e de cassação no TSE. A outra hipótese só seria aplicável pela cobiça direta ao cargo, algo que só poderia ser atribuído ao vice Michel Temer.

No mais, difícil imaginar que alguém tenha inveja da posição de Dilma, execrada por mais de 70% dos brasileiros. Muito menos inveja de seu governo, um dos piores de que se tem notícia.

Impedida ou não pelo Parlamento ou pelo TSE, Dilma deixará um estrago de dificílima recuperação nas próximas décadas.

Conseguiu, com êxito, fazer o país retroceder 25 anos, incluindo aí a área social que, em discurso, é tão cara ao petismo. Uma derrocada que começou no segundo mandato de seu patrono Lula, e que de lá pra cá só se aprofundou.

Tudo o que se fez em nome dos pobres quando visto a olho nu, revela o inverso.

Mais de 50% dos R$ 40 bilhões das pedaladas apontadas no processo de impeachment, que o governo diz ter operado para garantir programas sociais como o Bolsa Família, foram para subsidiar investimento privado de amigos – boa parte deles grandes empresários -, por meio do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES. Ao todo, o Bolsa Família custa R$ 27 bilhões ao ano, menos de um terço do déficit já assumido pelo governo para 2016, e que deve chegar a muito mais.

Mais grave: em programas que realmente garantem desenvolvimento e qualidade de vida, andou-se rapidamente para trás.

No saneamento básico, conforme revelou reportagem de Giovana Teles (Jornal da Globo) em parceria com o Contas Abertas, a irresponsabilidade governamental é criminosa. Dos R$ 62 bilhões previstos nos PAC 1 e 2 para água e esgoto, apenas 7% foram executados. Desde 2007. Não à toa, 35 milhões de brasileiros não têm água tratada, a coleta de esgoto chega só a 48% e tratamento é quase luxo. Depois, ficam estarrecidos com surtos de dengue, zika e chikungunya.

O quadro de desgoverno total se repete na Educação, em que os alunos brasileiros perdem para o terceiro-mundo, e na Saúde, área em que o país amarga a 50ª colocação na pesquisa da Organização Mundial da Saúde/2014. Um pornográfico penúltimo lugar, atrás da Argélia, Irã e Azerbaijão.

Paralelamente, o país gasta mais de R$ 400 bilhões com a máquina pública federal, R$ 214 bilhões em salários. Custeia nada menos do que 113 mil cargos de confiança, 30% deles de livre provimento. Ao mesmo tempo, amarga o segundo ano consecutivo de crescimento negativo e recessão, com mais de 10 milhões de desempregados.

Dilma vive hoje a alucinação de que é vítima de um complô conspiratório. Deve ser perturbador. A mesma Dilma encantada com os olhos que pareciam de lince de seu marqueteiro e que na campanha à reeleição mentia sem pudor ao prometer um governo de encher os olhos, agora reclama de olho gordo.

Mas no caso dela nem as imbatíveis sete ervas — espada de São Jorge, comigo-ningúem-pode, guiné, arruda, pimenteira, alecrim e manjericão – salvam.

SÓ A RENÚNCIA RESOLVE

Mesmo saindo vitoriosa amanhã, quer dizer, na hipótese de ter a Câmara julgado inadmissível o impeachment, a presidente Dilma não conseguirá governar. Acabará levada da incompetência ao desespero, impossibilitada de compor um ministério acorde com as necessidades nacionais. Incapaz, também, de formular um roteiro de ação em condições de minorar as agruras da população, a começar pelo desemprego. Melhor faria, então, se renunciasse desde já, permitindo o recomeço. Mas deixar o governo para Michel Temer? Seria trocar o Seis pelo Meia Dúzia, na medida em que ambos, além de carentes de capacidade e imaginação, perderam totalmente o apoio nacional, se é que algum dia o detiveram.

A renúncia de Madame e de seu vice ensejaria a solução constitucional de eleições amplas e limpas, mesmo no cipoal de partidos que assola a prática política. Um presidente da República selecionado entre mais de trinta candidatos, em campanha pelo país, teria meios de elaborar um plano de recuperação da economia.

A temporada de fantasias já passou, pelo menos desde que o Lula tirou Dilma do bolso do colete. Ela conseguiu o milagre de demolir o antecessor, ficando claro haver passado a sua hora. Do mato do PT não sai mais coelho. Os dois grandes partidos, PSDB e PMDB, pecam um por excesso, outro por escassez: Michel Temer não venceria eleições para síndico de seu prédio, ao tempo em que Aécio Neves, Geraldo Alckmim e José Serra deixaram de sensibilizar suas próprias bases. Saindo das mesmas indefinições de sempre, lá vem outra vez Marina Silva. Admite-se Ciro Gomes, pelo menos portador de conhecimentos razoáveis da realidade nacional. Correm em faixa própria e limitada Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro. Joaquim Barbosa e Sergio Moro poderiam constituir-se em opções, até porque parecem mais conhecidos do que os referidos anteriormente.

De qualquer forma, outros não faltarão. A única ressalva será que tanto Dilma quanto Temer parecem fora de cogitações. Ainda bem…

NENHUMA OUTRA TENTATIVA DE IMPEACHMENT FOI CHAMADA DE ‘GOLPE’

Nas guerras, nas grandes contendas ou, até mesmo, nas simples discussões a dois sobre questões menores, há inúmeras vítimas, mas a maior delas (e a que mais incomoda) é sempre a verdade.
Lembro-me dessa lição porque (alguns) “luminares”, tanto do direito como da política, ou da intelectualidade, em meio à grave crise por que passa o país, põem a boca no mundo – por escrito ou verbalmente, nos jornais, nas emissoras de rádio e televisão, mas, sobretudo, nas redes sociais – para esbofetearem ainda mais a verdade.

A presidente Dilma, ao tentar esconder a verdade do que ocorreu no governo do ex-presidente Lula e está ocorrendo no seu próprio governo, do ponto de vista tanto legal ou constitucional como ético, ressuscitou, no “Palácio dos Comícios” (novo nome do Palácio do Planalto), a palavra “nazismo”. Ao usar e estimular, exaustiva e repetidamente, o uso do slogan “Não vai ter golpe”, como técnica de combate contra um processo legítimo e constitucional, a presidente se traiu e simplesmente adotou, inconscientemente ou não, os mesmos métodos de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler. Ou seja: a mentira, repetida mil vezes, acaba se tornando verdade.

O recurso, previsto na Constituição, e há pouco regulamentado pelo Supremo Tribunal Federal, não é mais novidade. O próprio Lula e, antes dele, Fernando Henrique e José Sarney enfrentaram inúmeras tentativas de pedido de impeachment, e nenhuma delas foi chamada de “golpe”.

Desnecessário lembrar, por outro lado, de que o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, no qual o PT teve papel de destaque, nunca foi considerado golpe por quem quer que fosse.

Mesmo assim, em resposta ao utópico editorial “Nem Dilma, nem Temer”, da “Folha de S.Paulo”, a presidente, antes de reafirmar que não renunciará, aproveitou-se da chance, em sua página do Facebook, para dizer o seguinte, referindo-se ao jornal: “Antes apoiador do impeachment, agora pede a (sua) renúncia, evitando, assim, o constrangimento de respaldar uma ação indevida, ilegal e criminosa”.

Depois dessa resposta, ficou mais do que evidente que a presidente confunde o seu destino com o destino do país. É muita pretensão, leitor! Ou, então, se trata de grave e preocupante caso de compulsão e, como toda compulsão, difícil de ser tratada. A que acomete a presidente – a pior delas, a compulsão pelo poder, qualquer que seja sua forma –, acomete, igualmente, as pessoas do ex-presidente Lula, do presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e do presidente do Senado, Renan Calheiros. Juntos, submetem a grave constrangimento a grande maioria do povo brasileiro. Os quatro, juntinhos, fariam um bem imenso ao Brasil se renunciassem não apenas aos cargos, mas à vida publica. À qual, aliás, não souberam servir com honra e dignidade.

O editorial da “Folha de S.Paulo”, quando propõe a renúncia da presidente e de seu vice e, em seguida, o afastamento, pela Câmara ou pelo STF, “da nefasta figura de Eduardo Cunha”, esquecendo-se, porém, de Renan Calheiros, outra figura nefasta, talvez esteja com a razão, mas como tese. Tem total razão, todavia, quando afirma que “a presidente Dilma perdeu as condições de governar o país”.

Sobra-nos, leitor, o impeachment, para estancar a hemorragia que ameaça afogar o país. Para isso, há que se respeitar a Constituição e a vontade, já expressa, da maior parte do povo brasileiro.

E, enfim, que aceitemos o que ficar decidido.

Existe esperança na crise econômica e política?

A confiança do consumidor está em níveis cada vez mais baixos diante da crise política e econômica

A economia brasileira, como todos sabem, está imersa numa grave crise. Em 2015, o PIB (Produto Interno Bruto), soma de todas as riquezas produzidas no país ao longo do ano, teve uma retração de 3,8%, a maior queda desde 1990. As projeções do Banco Central para 2016 são de uma queda de 3,5%. O desemprego, como consequência da queda do PIB, não para de crescer; atualmente, está em 9,5%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Existe esperança na crise econômica e política x 1600x1200Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

O número de desempregados no Brasil já ultrapassa 9,6 milhões de pessoas. Isso sem falar na inflação, que assusta a cada um de nós toda vez que vamos pesquisar os preços nos supermercados, serviços etc. Um forte ingrediente da crise econômica é a crise política que o Brasil atravessa. Não se trata apenas de uma instabilidade, mas a incerteza sobre o futuro do Brasil trava os investimentos dos empresários e os gastos das famílias.

É corriqueiro, hoje, ouvir pessoas falando em adiar um gasto, a troca de um carro e até mesmo uma despesa pequena que seja. Muitos brasileiros estão segurando firme no bolso antes de gastar, e isso se reflete nas quedas nas vendas do comércio e serviços. Por outro lado, os empresários, também cheios de incertezas, aguardam um cenário mais favorável para investir. A consequência é vista na queda dos investimentos a um nível muito baixo do necessário para sustentar o crescimento da Economia. Enquanto a crise política existir, sem um cenário claro do que acontecerá, pessoas, famílias e empresários esperam e adiam seus gastos/investimentos. A confiança do consumidor, dos empresários, das empresas e organizações está em níveis cada vez mais baixos.