A política não morreu

Malfeitos refletem a concentração de poderes e recursos no Executivo, a impunidade, filha bastarda do corporativismo no Congresso e da histórica omissão do Judiciário

Marketing político (Foto: Arquivo Google)

 

Paulo Guedes, O Globo

A política não morreu. O que está morrendo é a Velha Política. As eleições brasileiras se tornaram uma feroz disputa pelo comando de gastos públicos que atingem 40% do Produto Interno Bruto (PIB).

A ferocidade das campanhas eleitorais é sintoma do Princípio de Gause: uma guerra de extermínio entre espécies social-democratas pelo domínio deste corrupto e ineficiente nicho ecológico, a máquina de administração centralizada.

Do financiamento de campanhas à obtenção de maiorias parlamentares, são inaceitáveis as práticas degeneradas da Velha Política, lubrificadas por propinas extraídas dessa engrenagem.

Malfeitos refletem a concentração de poderes e recursos no Executivo, mas também a impunidade, filha bastarda do corporativismo no Congresso e da histórica omissão do Poder Judiciário em suas diversas instâncias.

Mas está em curso o nascimento de uma Nova Política. O processo evolucionário de aperfeiçoamento institucional é o enredo temático de uma Grande Sociedade Aberta em construção.

Assistimos atônitos a esse efervescente desfile de emergentes instituições democráticas em meio ao maior escândalo político-financeiro de nossa História. A exímia técnica, a maior transparência, o compromisso com o Estado de Direito e a atuação cada vez mais independente de instituições republicanas, como o Ministério Público, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União e o Poder Judiciário, serão os parteiros de uma Nova Política, que criaturas do pântano da Velha Política ainda tentam abortar.

O processo do impeachment não será rápido, pois teremos de cumprir os devidos ritos constitucionais. A votação desta semana na Câmara dos Deputados é importante, mas, se vencida pelo governo, apenas desviará o curso dos eventos para o Tribunal Superior Eleitoral.

A gravação dos esforços de Dilma para blindagem de Lula contra uma eventual prisão, as denúncias de Delcídio do Amaral bem como as exortações de Lula ao combate a Sergio Moro cristalizaram para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e também para a opinião pública o diagnóstico de tentativa de obstrução à Justiça.

O desemprego em massa, as investigações da Lava-Jato e a devastação eleitoral dos governistas nas urnas em outubro configuram o cenário para a morte da Velha Política.

Paulo Guedes é economista

SEM FREGUESES, “BALCÃO DE NEGÓCIOS” DE LULA ENTRA EM CRISE

Charge do Newton Silva (newtonsilva.blogspot.com.br)

Carlos Newton

A lei da oferta e procura mostra que não deu certo o “balcão de negócios” que o ex-presidente Lula montou o Hotel Royal Tulip, em Brasília, para negociar acordos com deputados, oferecendo cargos de grande importância e até mesmo ministérios. As ofertas eram tentadoras e Lula ia direto ao ponto, indagando as “reivindicações” de cada um deles, sem tocar no assunto impeachment, porque passou a se cercar dos maiores cuidados desde que uma conversa sua com a presidente Dilma foi grampeada pela Polícia Federal.

Mas o mercado está em baixa, a crise é implacável e poucos negócios foram fechados por Lula na reta de chegada da votação na Comissão Especial do Impeachment, que vai agitar esta segunda-feira.

SEM NOVIDADES

Não haverá maiores surpresas. Já se sabe que a Comissão vai aprovar o impeachment. A única dúvida é sobre a diferença de votos, que pode ter importância fundamental.

São 65 votantes. Os últimos levantamentos mostram que 34 deles já demonstraram posição firme a favor do afastamento da presidente Dilma. Somente 20 deputados se manifestaram publicamente a favor dela. Os outros 11, que continuam indecisos, foram procurados diretamente por Lula ou por parlamentares do PT, mas não aceitaram fazer negócio.

VOTAÇÃO DECISIVA

A votação de hoje é considerada decisiva, porque influirá no posicionamento do plenário da Câmara, ainda nesta semana. Se alguns dos indecisos da Comissão resolverem votar a favor do impeachment, abrindo uma diferença grande, o resultado reforçará o viés de alta que vem se registrando no plenário.

Os levantamentos do Comitê Pró-Impeachment, feitos nas bancadas de cada Estado, mostram que hoje já existem 348 deputados a favor do afastamento de Dilma Rousseff, com seis votos de frente.

Estes números são consentâneos com as pesquisas feitas pelo Estadão. Levando-se em contra apenas os 403 deputados que já anunciaram publicamente seus votos, a amostragem do jornal sobre o plenário da Câmara é de 76% a favor e 24% contra.

TENDÊNCIA DA VOTAÇÃO

Em termos estatísticos, o que define situações como essa são os viés de alta e baixa, ou seja, os “algoritmos”, que indicam a tendência dos números, conforme se diz no moderno linguajar da informática.

Para aprovar o impeachment, é necessário que haja cerca de 67% de aprovação – exatos 342 votos. Para rejeitar, são necessários 34% – ou seja, 172 votos. Se Dilma tiver apenas 171, uma espécie de número cabalístico, e não houver faltantes, a vaca do governo irá mesmo para o brejo.

Segundo o Estadão, no plenário já existem 288 votos a favor, 115 contra e 110 indecisos.  E o viés é de alta para o impeachment.

VIÉS DE ALTA

Com o resultado de hoje na Comissão, que será favorável, pois a própria bancada do governo já admite a derrota, o plenário manterá o viés de alta favorável ao afastamento.

Para aprovar o parecer do relator no plenário, é preciso haver apenas mais 54 votos a favor. Para manter Dilma no governo, são necessários mais 56 votos contra. Portanto, se os indecisos forem cortados ao meio, Dilma perde por 343 a 170. Mas isso é um sonho/pesadelo shakespeariano de uma noite de outono, porque o viés é de alta para o impeachment, a diferença será muito maior.

Em tradução simultânea de tudo isso: Dilma Vana Rousseff pode ir arrumando as malas, e sem levar nenhum “presente” que pertença à União, porque desta vez o Ministério Público Federal estará atento à mudança.

###
PSIa esquecendo. Não me venham falar em deputados que pretendem faltar propositadamente à  votação, pois tal possibilidade não existe. Sabem que ficarão politicamente marcados até o fim de seus dias. Não se espantem se aparecer deputado para votar em cadeira de rodas, porque já aconteceu antes. Quem faltar é porque entrou em estado de coma.(C.N.)

Santa ignorância.

 Por Ruy Castro
… Ou talvez o mundo exterior só lhe provoque tédio e irritação. É o que ela aparenta enquanto o país desmorona ao seu redor, com o número recorde de falências, investimentos que minguaram ou nunca serão feitos e a inflação e o desemprego galopando para os dois dígitos…

RIO DE JANEIRO – Alguém comparou a presidente Dilma Rousseff a Josef K., personagem do romance “O Processo”, de Franz Kafka. Disse que, a exemplo de Josef K., ela também não sabe do que está sendo acusada. A comparação não procede. O infeliz K. vaga pelas instâncias e antecâmaras da burocracia sem que lhe digam o que têm contra ele. Mas Dilma, se folhear os relatórios do Tribunal de Contas da União e o da comissão especial da Câmara que propõe o seu impeachment, ambos tomando hoje dezenas de volumes, será informada das irregularidades que cometeu.

Se ainda assim Dilma continuar não sabendo, é caso de voltar imediatamente à cartilha. Aliás, por seu peculiar uso das palavras ao expressar-se, isso já deveria ter sido providenciado.

Enquanto muitos de nós levamos a vida tentando acumular conhecimentos que nos permitam entender o mundo, a especialidade de Dilma é não saber. Enquanto ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da Petrobras e ministra-chefe da Casa Civil, os desvios de bilhões de reais nos órgãos pelos quais era responsável não lhe provocaram um simples arqueio de suas sobrancelhas artificiais. E talvez esteja aí a explicação: se Dilma não sabia o que os aliados faziam, como saberá o que fazem os adversários?

Ou talvez o mundo exterior só lhe provoque tédio e irritação. É o que ela aparenta enquanto o país desmorona ao seu redor, com o número recorde de falências, investimentos que minguaram ou nunca serão feitos e a inflação e o desemprego galopando para os dois dígitos -tudo isso enquanto se apura a quantidade de dinheiro queimado pela corrupção de seus correligionários ou por sua simples incompetência.

Dilma gosta de falar de seu histórico na luta armada. Faria bem em pular essa parte. Com ela como militante, a luta armada não podia dar certo.

Comissão do impeachment deve aprovar nesta segunda relatório contra Dilma; hoje, já há os 342 votos

Atenção! Já não se trata de saber se o impedimento da presidente é a melhor alternativa; ele se tornou a única alternativa

Por: Reinaldo Azevedo

A Comissão Especial do Impeachment deve aprovar nesta segunda-feira o relatório do deputado Jovair Arantes (PTB-GO), favorável à continuidade do processo contra a presidente Dilma Rousseff. Os dois lados dão a aprovação como certa, o que, evidentemente, cria um clima negativo para a ainda presidente na votação em plenário, no próximo domingo.

Todos os esforços do governo têm-se mostrado, até aqui, inúteis. Hoje, nesta segunda-feira mesmo, o grupo pró-impeachment dispõe dos 342 votos. A movimentação destrambelhada do governo acabou criando uma situação negativa para a própria Dilma. Virou aquilo que é: desespero. E disso decorre o óbvio: dá-se como certo que, caso a petista consiga se safar do impeachment na Câmara, não vai conseguir governar depois.

Os erros vão se contando em penca, além das circunstâncias, sempre hostis porque hostis são os fatos. Na semana passada, os petistas chegaram a se animar, e Jaques Wagner saiu plantando redações afora que a causa estava liquidada. Um monte de jornalistas caiu na sua conversa.

Eis que vieram a público detalhes da delação premiada da Andrade Gutierrez. E os senhores parlamentares perceberam que o governo não sobrevive. Assim, que vá ao diabo antes em vez de ir depois — já que o seu destino é mesmo o inferno.

Outro fator que desanimou os que ainda tentam resistir foi o novo parecer do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra a posse de Lula como ministro da Casa Civil. E, nesse caso, deu-se algo curioso: que ela é ilegal, pautada pelo desvio de finalidade, a todos está claro. Mas isso Janot já sabia. Ao mudar tão radicalmente seu parecer, criou-se nos meios políticos de Brasília a certeza de que ainda vem bomba por aí. Quem está a fim de posar no retrato como aliado de um governo moribundo — e, pior, comprado por Lula?

A movimentação do ex-presidente, que está se tornando um Midas às avessas, passou a ser de tal sorte escancarada e desavergonhada que, nos corredores da capital federal, é frequente que se chame o tal quarto de hotel em que ele despacha de, como dizer?, lupanar. Procurem o sinônimo. É uma casa de tolerância.

Mais: mesmo deputados que estavam dispostos a entregar o corpinho a Lula começaram a se convencer de que, caso o governo consiga sobreviver por mais quase três anos, a sua pauta única será cuidar da candidatura do chefão petista à Presidência da República. E, nesse caso, o destino certo do país é o abismo.

Já nem se trata de saber se o impeachment de Dilma é a melhor saída. A cada dia, ele vai se mostrando a única saída. Todas as alternativas são piores. A tese das eleições gerais — ou ainda que apenas presidenciais — é uma bobagem rematada. A menos que haja dupla renúncia — de Dilma e de Michel Temer —, não há alternativa. Ou, então, duplo impedimento. No caso do vice, qual é mesmo a acusação? A continuidade de Dilma implica manter o país no rumo da desesperança e do desastre renovado.

Saída ótima, como se sabe, não há. E Temer, uma vez presidente, certamente terá muitas dificuldades, até porque o PT e as esquerdas vão tentar violar a Constituição e as leis para criar tumulto. Mas o país dispõe de instituições para enfrentá-los, segundo as regras da democracia, que eles se negam a reconhecer.

Dá para prever o resultado do próximo domingo? Não! Mas, nesta segunda, dá para dizer que os que são favoráveis ao impeachment dispõem de 342 votos. Agora se trata de ganhar margem de segurança até a votação decisiva, prevista para o dia 17.

O Brasil merece essa chance.

Impeachment: Caça aos picaretas

Ricardo Noblat

Quantos picaretas haverá em um Congresso de 513 deputados federais e 81 senadores?

Nos anos 80 do século passado, o então deputado Luiz Inácio da Silva acusou o Congresso de abrigar, pelo menos, 300 picaretas.

Triste ironia! Pois foi com o apoio de uma maioria deles que Lula governou duas vezes.

E é a eles que Lula novamente pede socorro para evitar, desta vez, a interrupção do mandato de Dilma.

Aquele que se apresenta como “a alma mais honesta do país” recebeu plena delegação de poderes de Dilma para empenhar o que for preciso em troca de votos capazes de barrar a aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados – de ministérios a cargos com orçamentos milionários; de liberação de dinheiro para pequenas obras a dinheiro vivo para financiar futuras campanhas.

De zica e de outros doenças, Dilma deixou de falar, reparou?

Neste momento, o estado de São Paulo vive um surto da gripe H1N1, com 534 casos confirmados e 70 mortes relacionadas ao vírus. Falta vacina nos postos médicos.

Uma multidão apinhou-se à porta de uma concessionária da BMW na capital paulista atraída por 1,5 mil doses de vacina oferecidas de graça. Cadê Dilma?

O Brasil está desgovernado desde que ela foi reeleita sem saber direito o que fazer. No primeiro mandato, parecia saber. Mandou sete ministros embora em nome do combate à corrupção.

Depois, aconselhada por Lula, trouxe-os de volta. No mais, fez tudo errado e afundou o país como se vê.

Errou até quando promoveu Lula a ministro na tentativa criminosa de salvá-lo da Lava-Jato – e de salvar-se.

O trabalho sujo, agora, desempenhado por Lula, liberou Dilma para ficar rouca de tanto apregoar que os corruptos jamais a derrubarão – logo ela, de biografia imaculada.

Procede assim em comícios país a fora e Palácio do Planalto adentro, animados pela palavra de ordem repetida por militantes amestrados de que “impeachment é golpe”.

Virou uma figura patética. Uma caricatura sem graça dela mesma.

Falta estimar o número de picaretas com direito a assento no plenário da Câmara. Mas muitos estão divididos entre aceitar pagamentos à vista ou a prazo.

À vista é o que Lula lhes promete desde que entreguem primeiro seus votos. A prazo é o que lhes prometem os que dizem falar em nome do vice-presidente Michel Temer.

Por enquanto, o vice está recolhido ao silêncio. Faz acenos à distância.

Esta tarde, salvo uma surpresa na qual nem o governo acredita, a Comissão Especial da Câmara aprovará o relatório que recomenda a abertura do processo de impeachment contra Dilma.

O relatório será votado no plenário da Câmara entre a próxima sexta-feira e o domingo. Ali, para que o pedido possa ser encaminhado ao Senado, serão necessários os votos de 342 de um total de 513 deputados.

Os defensores do impeachment admitem não ter os 342 votos. Mas dizem dispor de 330 a 335. Será?

No fim de semana, a maioria dos deputados voou aos seus Estados para encontrar parentes, amigos e eleitores. No Recife, Jorge Corte Real (PTB-PE) reafirmou ao pai que votará a favor do impeachment como ele lhe pedira.

Convidado para ser ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR) surpreendeu o governo no sábado com o anúncio de que está indeciso quanto ao impeachment. A filha dele, deputada estadual pelo PP, é a favor.

Espera-se para breve uma nova fase da Lava-Jato. Fora outras coisinhas (alô, alô, Lula!).

Lula e DIlma (Foto: André Coelho / Agência O Globo)Lula e DIlma (Foto: André Coelho / Agência O Globo)

PERDIDOS NO ESPAÇO

Bom seria se fosse ficção científica. Se fosse uma ampla discussão sobre física quântica, vácuo absoluto ou relativo. A narração arrastada de uma concorrida partida de xadrez, o tabuleiro, os peões; os cavalos; a torre; a rainha; o rei. O fim. O xeque-mate. Felizes seremos se, tal qual no Livro das Mutações, I-Ching, os passos dessa luta sejam como uma dança de guerra, mas rogo que tragam ensinamentos para os passos de cada uma das batalhas que se sucederão

 

Intuo que não será ponto final, que marca a pausa total, o fim de um tempo, de uma história, de uma revelação. Apenas ponto e vírgula, que dá a deixa para continuar na mesma toada. Tudo muito confuso, nas jogadas, nos jogadores, nas rodadas e nas rodas de conversa. Apenas nos entreolhamos e com olhares ansiosos esperamos na plateia o espetáculo que já sabemos de antemão – haveremos muito o que criticar. Qualquer desfecho trará aplausos e vaias.

Corramos para as montanhas, para algum lugar alto de onde possamos ter vista ampla para o que acontece na planície. E de onde possamos descer rapidamente para interferir, caso haja necessidade.

Não falo desses dias, ou melhor, não falo só desses dias aí, agora, à nossa frente, no nosso nariz. Falo de um todo desmantelado, do quebra-cabeças que cai espalhando suas peças, e acabam se perdendo algumas e que podem inviabilizar qualquer nova montagem. Quais serão os encaixes para cada uma das possíveis alternativas? Ninguém sabe. Nem os que estão se movimentando nos campos de batalha reais, nem os que parecem não querer tirar seus óculos virtuais e preferem viver olhando só o imaginário, o idealista.

O real é doloroso. Está doloroso e ao nosso redor, e em cada um de nós em alguma forma. A diferença é que quem quer mudar agora, imediatamente, o lado tingido de verde e amarelo, já definiu e elegeu o culpado, o mau governo, esse projeto de poder que definha e se debate, que deixou rastros, provas, ações e desações, tomou medidas, dirigiu as cenas desse filme triste. Filme que mistura gangsteres, histórias de amor, épicos, violência, dramas sociais, cenas manjadas, assaltos cinematográficos, cenas escatológicas e muita, muita comédia, que é o que mais aparece agora no final. Mas tem quem não viu esse filme, ou se viu não entendeu, ou se entendeu quer se fazer de bobo, ou acha mesmo que está tudo bom – e sei lá, é preciso respeitar.

Não há efeitos especiais – e olha que é impressionante a tentativa de usá-los sub-repticiamente – que surtam efeito no público calejado; talvez toque só nos mais fracos ou nos distraídos, que acham que as pessoas que falam nas propagandas com aquelas bocas cheias de dentes brancos existem fora dali, nas portas dos bancos oficiais, nos postos de saúde, hospitais, escolas, abrindo as portas de lindas casinhas com chaves mágicas, e nem vida nem casa.

Não pode haver portas abertas de palácios só para os que aplaudem, que comem na mesma mesa, que estraçalham coxas com apetite, tocam sinos bajulantes. Se chegar à sacada verá lá fora outros milhões de narizes para cima, ouvirá os cantos discordantes, talvez até algo mais de lá seja atirado com revolta. Não adianta nem cercar o palácio com jacarés famintos, nem com cães enraivecidos.

Porque demora-se tanto? Porque todos não vimos bem antes o que já se desenhava enquanto mentiam nos atraindo às urnas, como bois a matadouros? Porque ali já estávamos como agora – sem opções ou caminhos seguros. Uma verde demais. Outro já caindo de maduro. Um abatido em pleno voo. Uma se sentindo com coração valente. Que protagonistas são esses, pior, e que continuam eles os protagonistas dos próximos filmes? Listados no rol de coadjuvantes veremos de novo os mesmos e os piores atores e atrizes atuando nos piores cenários, e às vezes com péssima iluminação.

Não é novela, que se desenrola muito em cima do que o público vai reagindo; se fosse já estaria mais próxima de um final e com a próxima sendo divulgada. É filme. De longa-metragem, talvez com várias sagas, e até de filmes que já vimos.

A luz apagou. Está no ar. Agora precisamos ficar em silêncio assistindo. Tá, pode tossir, comentar ao ouvido de quem está ao seu lado. Só não pode ficar cochichando muito que atrapalha e, por favor, não ria fora de hora, que nunca se sabe quem vai rir por último.

Dias difíceis, dias cheios de ansiedade, muitas cenas para rodar. Abril, 2016, São Paulo

Marli Gonçalves é jornalista do chumbogordo.com.br – Vou continuar em paz, aqui, tentando dar uma tradução mais ao pé-da-letra possível dos filmes que assisto, com paixão por desenhos animados que duram por toda uma vida e não tem nem final. Só na moral. 

A FALÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES

Sem tempo para preocupar-se com outra questão a não ser o impeachment, deveria a presidente Dilma voltar-se para o day-after da manifestação da Câmara dos Deputados, qualquer que ela seja, esta semana. Porque tendo ou não garantida sua permanência no poder, a verdade é que seu governo carece de rumos. Não produziu, até agora, um elenco de iniciativas capazes de enfrentar o desemprego em massa, a alta do custo de vida, a disparada no preço dos impostos, taxas e tarifas, e a necessidade de retomar o crescimento econômico. Nem Madame nem o PT dispõem de um roteiro para sair da crise.

Parece nosso destino manifesto a convivência com o vazio que marca a ação governamental. Se antes inexistia um programa, agora desapareceu até o ânimo para imaginá-lo. Alguém se lembra da apresentação de alternativas para o país sair do sufoco, depois da reeleição? Entre tantas mudanças ministeriais, registra-se ao menos uma capaz de apontar alterações em condições de tirar o Brasil do buraco?

A inação ultrapassa a esfera da coisa pública. Omite-se a atividade privada, que poderia contribuir para desafogar o impasse. Entre o sucessivo fechamento de empresas, não se sabe bem se começo ou fim do desemprego, emerge a apatia pela recuperação. Se o poder público dá de ombros para a função específica de contribuir para o crescimento econômico, da mesma forma não se movimentam as categorias privadas, preocupadas apenas em saber quem paga o pato.

A inteligência nacional também saiu de cena. Nenhuma iniciativa se verifica nas universidades, nos partidos políticos, nas religiões e nas entidades da sociedade civil. A mídia afastou-se da obrigação de iluminar o futuro, dedicando-se exclusivamente à crítica do presente.

Deitar a responsabilidade no governo é necessário, mas não basta. A sociedade carrega sua parcela de culpa na lambança. Se é certo que a presidente Dilma descumpre suas obrigações, também fica evidente a falência das demais instituições.