O Crime Do Padre Amaro

QUANDO A HISTÓRIA SE REPETE…

                                                A NOTÍCIA:   Padre que dirigia alcoolizado é detido após matar homem*

 Um padre foi detido na noite deste domingo, 17, após atropelar e matar um homem em Monte Mor (SP). De acordo com a Polícia Militar Rodoviária, o sacerdote estava embriagado e não prestou socorro à vítima. Levado à delegacia, ele foi liberado após pagar R$ 5 mil de fiança. O nome do religioso não foi informado. Ele tem 60 anos e alegou que retornava de uma celebração. Contou ainda que tomou um pouco de vinho durante a missa, antes do atropelamento, ocorrido na Rodovia Jornalista Francisco Aguirre (SP-101). A vítima, Alexsandro Rodrigues do Amaral, de 39 anos, atravessava a pista com um primo quando foi atingido. Testemunhas contaram que o padre estaria em alta velocidade, situação que será investigada por meio dos laudos a serem emitidos pela Polícia Técnica, que periciou o local. Amaral trabalhava como ajudante de cozinha e socorristas tentaram reanimá-lo, mas ele não resistiu. O padre não parou para ajudar, tendo pedido ajuda depois em uma praça de pedágio. Com o carro bastante danificado, ele alegou ter acreditado que uma pedra havia sido jogada contra o veículo.

APURAÇÃO– A Polícia Civil investiga o caso e o religioso também pode ser punido internamente pela igreja, caso fique comprovada sua culpa O exame do bafômetro apontou 0,36 ml de álcool por litro de sangue, quantidade que já é considerada crime de trânsito. A vítima era de Campinas (SP), enquanto o padre é da capital paulista. Ele estava em Monte Mor para realizar celebrações em uma paróquia da cidade.

                           O CRIME DO PADRE AMARO*

Por Meraldo Zisman

Lembro ao leitor que o nome desta “croniqueta” foi copiado de um romance do consagrado escritor José Maria d’Eça de Queirós (1845-1900), considerado como o primeiro romance realístico da língua de Camões. Romance esse que chocou a sociedade da época com sua denúncia da hipocrisia social e religiosa.  Novela anticlerical das mais ferozes, ambientada em Leiria, onde o Padre Amaro Vieira, ingênuo e psicologicamente fraco, vai assumir sua paróquia. Hospedando-se na casa da Senhora Joaneira, acaba por se envolver sexualmente com sua filha, Amélia. Amaro conhece, então, o cinismo dos seus colegas, que em nada estranham sua relação com a jovem. Grávida, Amélia acaba por morrer no parto e Amaro entrega a criança a uma “tecedeira de anjos”. Morta também a criança, Amaro, agora um cínico descarado, prossegue com a sua carreira. O romance, que critica violentamente a vida provinciana e o comportamento do clero, foi, durante décadas, leitura proibida em muitas escolas de Portugal e do Brasil.  A nossa historieta do Crime do Padre Amaro é diferente da homônima escrita pelo Eça de Queirós.

 Nasceu o nosso pároco nordestino na cidade de Vitoria de Santo Antão, onde se encontra a fábrica de cachaça Pitu. Cachaça, destaco, de renome nacional e internacional. Mas isto não vem o caso, pois o nosso padre Amaro era um abstêmio, um vocacionado. Vinho, somente o de missa – e na missa.

 Nascido em modesta família de cortadores de cana, bom aluno e com a ajuda da professora municipal, foi ser seminarista para poder formar-se e iniciar uma carreira.

  — Lei é Lei, a Lei é para todos, disparou o garboso defensor da ordem e dos…Códigos.

 No Seminário sentiu a sua vocação religiosa e entregou-se a ela, de corpo e alma, como dizem por aí. E, não se arrependeu! Era a sua verdadeira vocação. Parece que o povo sente o verdadeiro sacerdote e o amava pela sua brandura, humildade e humanidade. Os compromissos não tinham fim: era uma missa aqui, um casamento acolá, batizados e outras obrigações sacerdotais. Padre Amaro não parava. Estava sempre presente para distribuir uma palavra, um gesto consolador, à sua gente sofredora.  Bastante contar que, além de todas as ocupações e correrias, ainda se dedicava a alfabetização de pessoas adultas.

 Dia desses, um domingo, a sua agenda estava, como sempre, lotada. Além das três missas celebradas, programou uma visita a uma ex- paroquiana que não mais residia na sua freguesia. Acabada a última missa, tomou o carro e seguiu para Olinda, cidade onde passara a residir à devota senhora que solicitava suas atenções psicoreligiosas (portadora de câncer terminal). Vinha o sacerdote dirigindo normalmente quando foi parado por uma blitz da Polícia Rodoviária. Não costumava envergar batina, tinha apenas um crucifixo na lapela que indicava ser ele um religioso, um homem de Deus. Padre Amaro era do tipo nordestino, franzino e de tez amarelada, certamente devido à fome ancestral e à verminose, companheiras constantes de seus anos de infância.

 Não foi reconhecido pela autoridade como o mui querido e popular Padre Amaro. Apesar da suas alegações de ser um sacerdote, não teve jeito:

  — Lei é Lei, a Lei é para todos, disparou o garboso defensor da ordem e dos…Códigos.

 O Padre teve que soprar no bafômetro. Não deu outra. Teor alcoólico, presente. Preso em flagrante delito (o nosso popular “teje preso”), foi para a delegacia. Não importa se o vinho era vinho de missa. O pobre do padre Amaro foi autuado em flagrante. Foi o Crime do Padre Amaro, servidor da Arquidiocese de Olinda e Recife. É isso aí… Dura lex, sede lex. Principalmente no Nordeste.

  • DESCULPE QUALQUER COISA (CRÔNICAS DE UM MÉDICO JUDEU PERNAMBUCANO) ed. Livro Rápido Olinda/Pe. 2010

 Moral da História:  História repete-se sempre, pelo menos duas vezes. disse Hegel. Karl Marx acrescentou …a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa… Será?

_________________________________________________________________

Meraldo ZismanMédico, psicoterapeuta. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

O QUE SOMOS

espelho-rococo-

Por Ruy Castro

Cada qual tentava parecer mais “sincero” do que o outro. Mas como acreditar em quem tinge o cabelo de acaju?

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, página 2, edição de 20 de abril de 2016
RIO DE JANEIRO – Sim, o espetáculo proporcionado pelos deputados no último domingo foi caricatural, pândego, funambulesco. Não havia diferença entre os que citavam a mãe, o filho ou o próprio Deus para justificar seu voto pelo impeachment e os que, para votar contra, invocavam uma Constituição que, em 1988, o PT não aceitou, não assinou e de que jamais quis saber. Cada qual tentava parecer mais “sincero” do que o outro. Mas como acreditar em quem tinge o cabelo de acaju?Na verdade, o show da Câmara não teve nada de inédito – porque, sem saber, levamos os últimos 150 anos nos preparando para ele. Desde 1860, os palcos cariocas fizeram piada com o pior lado dos políticos, culminando nos anos de 1930 e 1940 com as sátiras do ator Pedro Dias ao ditador Getulio Vargas. O qual, às vezes, ficava mais parecido com Pedro Dias do que consigo próprio.Em certos momentos da votação de domingo, eu me afastava da TV para ir pegar alguma coisa e ficava só com o áudio dos discursos. Era como se voltasse no tempo e estivesse ouvindo de novo o “Balança, Mas Não Cai” e a “PRK-30”, programas de humor das rádios Nacional e Mayrink Veiga. Os políticos desses programas falavam igualzinho.

Na verdade, o show da Câmara não teve nada de inédito – porque, sem saber, levamos os últimos 150 anos nos preparando para ele.

E o que seriam os discursos propositadamente canastrões de Corisco e Antonio das Mortes em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, senão os de certos deputados petistas? Aliás, quantos ali, de qualquer partido, não se sentiriam em casa nas sequências de chanchada tropicalista de “Terra em Transe”, do mesmo Glauber? E quantos não poderiam interpretar o deputado Justo Veríssimo, criação imortal de Chico Anysio?

Fosse qual fosse o resultado da votação, não alteraria o fato de que nossos políticos parecem foragidos de um esquete de humor. Mas não adianta estrilar. Eles são o que temos e, quem sabe, são o que somos.

Dilma na ONU: não se trata apenas de um equívoco; trata-se de um crime

 

Presidente já está rasgando o Artigo 85 da Constituição com em solo nacional com a mentira do golpe; agora, ela pretende pisotear a Carta em discurso na ONU

Por: Reinaldo Azevedo

Poucas coisas revelam com tanta clareza a natureza do PT e põem na devida perspectiva a sua história como a acusação destrambelhada de que impeachment é golpe. Sim, claro, todos sabemos: esse é um argumento de quem já perdeu e investe numa versão que possa justificar atos de sabotagem contra o futuro governo, que já foram anunciados. Mas é mais do que isso, reitero: expõe-se aí uma essência.

O PT nunca acatou a democracia como um valor inegociável. Querem a prova? Na oposição, sabota governos; no governo, mobiliza-se para não apear do trono nunca mais. Não reconhece a legitimidade do “outro” nem a alternância do poder.

Alguns esperavam — eu não, confesso — que fosse um pouco mais responsável. Não é. Imaginem um partido em que um sujeito considerado moderado, como José Eduardo Cardozo, transforma a Advocacia-Geral da União num centro de baixo proselitismo político. O ápice da irresponsabilidade está no discurso que Dilma pode fazer amanhã, na ONU, com referências ao suposto golpe que estaria em curso no Brasil.

Nesta quarta, três ministros do Supremo repudiaram de maneira inequívoca a fala: Celso de Mello, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Disse Mello: “Há um equívoco quando [Dilma] afirma que há um golpe parlamentar, ao contrário. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, deixou claro que o procedimento destinado à abertura do processo de impeachment observa os alinhamentos ditados pela Constituição da República”.

E o ministro avançou: “Portanto, ainda que a senhora presidente da República, veja, a partir de uma perspectiva eminentemente pessoal a existência de um golpe, na verdade, há um grande e gravíssimo equívoco, porque o Congresso Nacional, por intermédio da Câmara dos Deputados e o Supremo Tribunal Federal, deixaram muito claro que o procedimento destinado a apurar a responsabilidade política da presidente da República, respeitou até o presente momento, todas as fórmulas estabelecidas na Constituição”.

Também o ministro Gilmar Mendes insistiu na normalidade institucional: “Eu não sou assessor da presidente e não posso aconselhá-la. Mas todos nós que temos acompanhado esse complexo procedimento no Brasil podemos avaliar que se trata de procedimentos absolutamente normais, dentro do quadro de institucionalidade. Inclusive as intervenções do Supremo determinaram o refazimento até de comissões no âmbito do próprio Congresso Nacional, da própria Câmara, [o que] indica que as regras do Estado de Direito estão sendo observadas”.

Toffoli destacou uma questão para a qual já chamei atenção dos leitores muitas vezes. Se a própria presidente apresentou a sua defesa nas instâncias adequadas, como pode chamar de golpista o aparato ao qual recorreu para se defender? Disse: “Falar que o processo de impeachment é um golpe depõe e contradiz a própria atuação da defesa da presidente, que tem se defendido na Câmara dos Deputados, agora vai se defender no Senado, se socorreu do Supremo Tribunal Federal, que estabeleceu parâmetros e balizas garantindo a ampla defesa. Portanto, alegar que há um golpe em andamento é uma ofensa às instituições brasileiras, e isso pode ter reflexos ruins, inclusive no exterior, porque isso passa uma imagem ruim do Brasil. Eu penso que uma atuação responsável é fazer a defesa e respeitar as instituições brasileiras e levar uma imagem positiva do Brasil para o mundo todo, que é uma democracia sólida, que funciona e que suas instituições são responsáveis”.

Cadê Lewandowski?
Que bom! As instituições democráticas respiram normalmente. A fala dos três ministros honra a corte constitucional brasileira. Mas vou aqui lançar perguntas: “Onde está o ministro Ricardo Lewandowski, que é a autoridade máxima do Poder Judiciário no momento? Como é que ele permite que prospere essa farsa e mantém um silêncio cúmplice a respeito?”. Ainda que ele possa achar que inexistam elementos para processar a presidente por crime de responsabilidade, ele sabe que golpe não é.

Mesmo Renan Calheiros (PMDB-AL) sendo um dos investigados da Lava-Jato, segue sendo presidente do Senado e do Congresso Nacional. Também a ele cabe repudiar de pronto a acusação.

E não posso, uma vez mais, deixar de lado uma questão importante. Dilma não está apenas cometendo um equívoco. Ela está praticando novos crimes. A um presidente da República não se faculta a licença para tratar como golpistas os Poderes Legislativo e Judiciário, quando estes, obviamente, estão seguindo a Carta Magna e as leis. A presidente ofende, assim, o Artigo 85 da Constituição nos seguintes incisos:
Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III – o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;
IV – a segurança interna do País;
VII – o cumprimento das leis e das decisões judiciais.

Creio que nem preciso explicar por quê. A disposição de Dilma de levar a questão para a ONU revela a determinação do PT de sabotar o futuro governo e emite um sinal de que as franjas do partido, que se dizem movimentos sociais e sindicais, pretendem aderir mesmo à mais pura e escancarada subversão da ordem democrática.

E há de valer para o PT a máxima tocquevilleana, não é? Vamos corrigir os males da democracia com mais democracia. Na exata medida em que os petistas, liderados por Lula, decidirem afrontar algum dispositivo da Carta, será preciso usar a Carta para que voltem a se comportar segundo as regras da civilidade. Ou para que paguem o preço de sua transgressão.

Na tirania petista, tudo pode ser permitido ao tirano e seus amigos. Na democracia, não!

Dilma tem de arcar com o peso de suas irresponsabilidades adicionais.

Michel Temer tem que partir em busca da confiança perdida

Charge do Amarildo, reprodução da Gazeta Online

Pedro do Coutto

A pesquisa Datafolha, reportagem de Felipe Bachltd, Folha de São Paulo de terça-feira, observando-se bem o conteúdo de que se reveste, assinala a existência de uma forte desconfiança em torno do vice Michel Temer que em breve assumirá a presidência da República. Computando-se e dividindo-se os números revelados entre tanto os que apoiam o afastamento de Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, quanto os que são contrários à solução Temer, a pesquisa revela que 58%, no fundo, não confiam nele.

Uma questão de confiança exige ações concretas na direção da sociedade brasileira de mofo geral. Pode-se dizer que a desconfiança reinante decorre do fracasso da administração Dilma Rousseff. Por certo. Mas o problema é que, basicamente, essa falta de confiança continua predominando no cenário nacional. Como vencer esta barreira? Nesta pergunta é que habita o desafio.

O QUE O POVO QUER?

O novo governo, que está perto da alvorada, não do Palácio, mas na divisão das honras, em primeiro lugar tem de identificar o que em média, a população deseja. No momento, ela vacila. Tanto assim que o Datafolha demonstra que 60% acham que Dilma deveria renunciar ao que resta de seu mandato. Mas 58% revelam não confiar em Michel Temer. Analisando-se de maneira realista o panorama político, o levantamento expõe um espelho duplamente negativo.

Está faltando esperanças, enquanto sobra pessimismo. Porém, para isso não bastam as palavras. Os fatos são indispensáveis. Afinal de contas, o adjetivo não pode tomar o lugar do substantivo.

SALÁRIOS REDUZIDOS

A política salarial, por exemplo. Não existe de fato, mas está no papel que são irredutíveis os salários dos trabalhadores regidos pela CLT e os vencimentos dos funcionários públicos. Na teoria. Mas na prática ocorre exatamente o contrário.

A taxa inflacionária de 10,6% que marcou o exercício de 2015, divulgada pelo IBGE, somente foi reposta sobre o salário mínimo, que abrange praticamente 1/3 da mão de obra ativa. E os outros 2/3? Com toda certeza estão perdendo a corrida contra os preços que sobem todo o dia.

PROBLEMAS SOCIAIS

É fundamental considerar um fato. Aos 10,6% não repostos têm que ser somadas as parcelas mensais acontecidas neste ano. Não importa que de janeiro de 2015         a janeiro de 2016, a inflação oficial tenha baixado de 10,6 para 9,9%. O que importa, na verdade é que, enquanto as perdas do ano passado não forem recuperadas, os problemas sociais vão crescendo de forma cada vez mais sensível, especialmente para as classes de menor renda. Antes que se esqueça, devo acentuar que a mão de obra ativa brasileira é formada por cerca de 100 milhões de homens e mulheres. Por isso, inclusive, é que uma taxa de desemprego da ordem de 9,7% significa, em números absolutos, quase 10 milhões de pessoas sem receber salários.

São a legião dos que estão lançados no subsolo do consumo indispensável.

RENDA MUITO BAIXA

Para se ter uma ideia, gostaria de ouvir Flávio José Bortolotto e Wagner Pires, companheiros deste site, sobre esta situação: 1/3 dos que trabalham ganham o piso. Cinquenta por cento de 1 a 3 minímos. Oitenta por cento incluem até 7 salários mínimos. A renda média brasileira registra 2,5 mil reais. Por mês. Com salários assim e assistindo à corrupção na Petrobrás, o povo tem razão para desconfiar dos roubos contra o patrimônio coletivo.

Apertem os cintos….o presidente sumiu

Sumir (Foto: Arquivo Google)

Na prática, Dilma Rousseff já não é presidente da República em toda a plenitude, mas Michel Temer também não é. O Brasil caiu num perigoso limbo, um buraco negro que engoliu a autoridade presidencial, irreversivelmente abalada, mas nada colocou ainda em seu lugar. A presidente da República legitimamente eleita começou a perder as condições políticas e legais de governar com a aprovação da autorização do impeachment pela Câmara. O vice vive numa bolha de expectativa de poder, na qual tenta formar um governo e criar condições para, mais adiante, ganhar legitimidade para governar. O fato é que, neste momento, ninguém governa de verdade.

É uma situação extremamente delicada, pela qual o Brasil não passava desde o fim dos governos militares. Talvez nem mesmo a dúvida que se instalou na madrugada de 15 de março de 1985, quando Tancredo Neves adoeceu e não tomou posse, tenha sido tão inquietante quanto a situação que vivemos hoje. Na ocasião, assumiu o vice, José Sarney, com o apoio das forças políticas, e a vida seguiu.

Hoje, estamos longe desse tipo de consenso. Instalou-se um vazio. Os agentes políticos giram todos em torno das articulações contra e a favor do impeachment e o Brasil parou. Mas tudo sempre pode piorar, e o maior risco é a crise rotineira de cada dia dar lugar a algum abalo inesperado ou evento que exija reações rápidas e decisões fortes. Por exemplo, uma epidemia grave, um acidente natural ou catástrofe, um desentendimento diplomático sério ou qualquer situação emergencial do tipo que demande intervenção imediata do governo. Que governo?

Enquanto durar tal situação, o país continuará a milhares de quilômetros de distância de qualquer medida, proposta, plano ou iniciativa para sair do fundo do poço onde se encontra e tentar recuperar a economia, vinda de Dilma ou de Temer.

O mais grave é que ninguém sabe bem quanto tempo se levará para desatar esse nó. A precariedade institucional pode se estender para além da substituição formal de Dilma por Temer. Afinal, legalidade nem sempre vem acompanhada de legitimidade, e vice-versa.

Foi constitucional e legal, por exemplo, a decisão da Câmara de aprovar o impeachment da presidente da República. Assim como também é legal que ela, ainda no exercício do cargo para o qual foi eleita, dê declarações condenando os que a condenaram.  Dilma não pode tomar decisões ilegais ou inconstitucionais que excedam o mandato legal que recebeu da Constituição, mas pode espernear. Como presidente, ela resolveu espernear em Nova York, na ONU. Não deixa de ser um direito seu. Enquanto não for apeada do cargo de presidente, fala pelo Brasil nos foros internacionais.

Michel Temer tem também o direito, e até o dever, de fazer suas articulações para montar uma equipe que tem que estar pronta quando assumir, provavelmente entre 12 e 17 de maio, com a  aprovação pelo Senado da admissibilidade do processo – hipótese sobre a qual ninguém tem dúvidas.  A partir dessa data, será legalmente presidente e poderá governar. Mas não plenamente, pois será interino enquanto o Senado não julgar em definitivo a presidente, em até 180 dias.

O maior medo de Temer e seus aliados hoje é que, com a legalidade de sua posse, não venha a legitimidade necessária para governar de fato. Há grande preocupação com os movimentos de Dilma e do PT de Lula, com seu discurso colando ao impeachment a palavra golpe e chamando o vice e seus aliados de traidores. A incursão internacional de Dilma, junto à mídia e agora no cenário da ONU, pode ser desastrosa para o Temer num momento em que precisa passar a idéia de que poderá resgatar a credibilidade da economia.

Michel Temer – que não conta com bons índices nas pesquisas – sabe que, independentemente da data da posse legal, só vai virar presidente de verdade quando e se convencer o país de que tem condições de liderá-lo, e que isso passa pelas primeiras medidas rumo à  recuperação da economia. É a tal da legitimidade, que os governantes conquistam nas urnas e, mais raramente, em atitudes, gestos e realizações.

Se essa legitimidade não for conquistada, é grande o risco de crise institucional no presidencialismo à brasileira. Em pouco tempo, vamos estar discutindo a sério a antecipação das eleições, o parlamentarismo e outras idéias malucas.  Até lá, apertem os cintos porque o piloto continuará sumido.

O FUTURO PEDE PASSAGEM

O primeiro passo para o impeachment de Dilma Rousseff foi dado pela Câmara dos Deputados, em votação histórica, com a aprovação por mais de dois terços de seus representantes da abertura do processo de impedimento da presidente da República. Cumprindo sua prerrogativa constitucional e em consonância com o desejo amplamente majoritário da sociedade, a Casa iniciou o caminho que pode levar ao fim do desgoverno lulopetista, de forma legítima e democrática, pelo bem do Brasil e em respeito absoluto ao que determina a nossa Constituição.

 

A partir de agora, caberá ao Senado Federal a apreciação da admissibilidade do processo e a votação final que, caso alcance os dois terços de parlamentares necessários ao impeachment, afastará Dilma de forma definitiva do Palácio do Planalto. A população tem de se manter mobilizada, seja nas ruas ou nas redes sociais, e continuar acompanhando atentamente o trâmite do processo junto aos senadores. O Congresso Nacional deve ter o compromisso de não fazer nenhum jogo protelatório, como insinuam alguns parlamentares governistas, sob pena de prolongar a crise que aflige os brasileiros e gerar um ambiente de indefinição política e insegurança institucional que fragilizaria ainda mais o país.

 

As forças políticas que votaram pelo impeachment de Dilma na Câmara e o farão no Senado têm a responsabilidade política e até a obrigação moral de dar sustentação ao governo de transição que emergirá, como é natural e próprio do regime democrático. Não podemos repetir o equívoco histórico do PT, que participou ativamente do impedimento de Fernando Collor em 1992, mas se recusou a integrar a coalizão comandada por Itamar Franco.

 

A nova gestão terá um caráter inequivocamente reformista e, diante do desmantelo econômico que os governos de Lula e Dilma legaram ao país pela incompetência e irresponsabilidade dos últimos 13 anos, o novo presidente necessitará de um apoio expressivo do Parlamento para levar adiante as reformas de que o Brasil precisa neste momento tão delicado.

 

Ao contrário das mentiras que já começam a ser propagadas pelo PT, não há qualquer intenção de cortar os programas sociais ou mexer naquilo que estiver funcionando. O próprio vice-presidente Michel Temer reiterou que as alterações mais profundas e necessárias se darão especificamente nas áreas que têm sérios problemas e precisam avançar, sobretudo no campo econômico, duramente afetado por uma das maiores recessões de nossa história republicana, com desemprego recorde e inflação em alta. É fundamental agir rápido e com eficiência para dar esperança às famílias brasileiras, tão vilipendias pelo descalabro promovido pelo lulopetismo.

 

O governo Itamar, ao qual servi honrosamente como líder na Câmara, é a prova cabal de que, ao contrário do que se viu no período em que o PT conduziu o país, é possível formar maiorias no Parlamento e angariar apoios a partir de um programa e de propostas, e não das tenebrosas transações que desaguaram no mensalão e no petrolão – os dois maiores escândalos de corrupção da história do Brasil, que têm o carimbo do PT e as digitais de Lula e Dilma. O governo de transição que se avizinha será de coalizão, como deve ser em uma democracia em que se respeitem as instituições republicanas, e não de cooptação.

 

Os mais de 70% de deputados que votaram pelo impeachment na Câmara e os muitos milhões de brasileiros que tomaram as ruas em todo o país já deram o seu recado: é preciso encerrar o governo que aí está, autor de uma série de crimes de responsabilidade, e escrever um novo capítulo de nossa história. Em nome da esperança, do destino das novas gerações, da democracia e da Constituição, chegou a hora de o Brasil se livrar daqueles que se locupletaram do Estado e o tomaram de assalto em prol de um mero projeto de poder. Precisamos virar essa página e não devemos ter medo do futuro, que pede passagem.

 

Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

TURBA PERIGOSA E SEM ESCRÚPULOS

Lisboa – Nunca antes o Brasil foi tão ridicularizado e  criticado pelas imprensa portuguesa como agora.Normalmente respeitosos com relação ao nosso  país,políticos e jornalistas portugueses ocupam horas nas emissoras de televisão,rádio e jornais  para expor o que temos de pior:a classe política.Tomei emprestado  o título deste comentário do artigo de Manoel Carvalho,publicado na edição de segunda feira  passada do jornal Público,onde  comenta que a sessão da Câmara dos Deputados de domingo que aprovou o recebimento do pedido de impeachment da Presidente Dilma,exibiu o que, na sua  e na minha opinião ,.subsiste o pior que há no Brasil.Estamos de acordo que é a nossa deplorável classe política.

Domingo à noite,um grupo de brasileiros e portugueses,em torno da televisão ,numa certa embaixada, acompanhou em Lisboa a transmissão direta da TV Globo da sessão da Câmara dos Deputados,em estado perplexidade.Embora com opiniões divergentes sobre o  impeachment ,mas com educado bom senso,todos admitiram sentir vergonha do que vem acontecendo no Brasil.Foi igualmente unânime o reconhecimento de que,somente naquele momento, se deram conta do baixo nível da nossa representação parlamentar.Bem disse o jornalista Manuel Cavalho que nosso Estado laico estava sendo torpedeado pelos clamores evangélicos,com as invocações a Deus, à Pátria, à Familia e à toda uma cadeia de parentescos, e que tinha cabado de saber que no Maranhão existe uma cidade chamada Itapecuru.Ironia portuguesa.

Eles fez críticas duríssimas,chegando a chamar de “alcatéia” os 60 dos deputados que tem casos pendentes na Justiça.Nem a Presidente Dilma escapou, a quem classificou de “inepta,arrogante e incompetente”,mas nem por isso defendeu seu afastamento.Para ele ,é  incompreensível que o deputado Eduardo Cunha,” campeão das suspeitas de corrupção” “ tenha presidido a sessão e , “ sem sentido que o grande guru da operação,Michel Temer,possa escapar das acusaçôes” que lhe foram feitas.E termina afirmando que” com uma Câmara de Deputados assim,histriônica,acéfala,umbiguista e demagógica”,o que está em risco é a própria democracia.

No dia seguinte,ele continuou escrevendo artigo no mesmo jornal sobre o Brasil intitulado “Regresso ao Passado no País do Futuro”.Ele comenta não ser possível “detectar  uma vírgula de legitimidade no sucessor Michel Temer.”E  conclui, melancolicament,manifestando a esperança de que o Brasil “ não regresse ao pesadelo que o persegue:o de ser o país de um futuro sempre adiado.”Outro artigo do mesmo jornal afirma que “ Dilma foi Tramada por um Gangster”, onde o jornalista Félix Ribeiro adverte que o “estado de graça” em que ficou Eduardo Cunha “pode valer-lhe anistia,mesmo que enfrente uma montanha de corrupção”

Também na segunda feira,no Diário de NotÍcias,o jornalista Ferreira Fernandes,denuncia:”Mão Mole para Receber e Dedo Duro para Acusar”,onde narra a triste trajetória do Brasil atual.No mesmo jornal,sob o título “ Tchau Querida”,o jornalista Sergio Figueiredo,recorrendo a um tom poético afirma não haver no Brasil em quem confiar.”Tudo o que de mal Dilma tem,tudo o que de pior se atribui a Lula,por definição a  Temer pertence.Não se pode, a não ser por canalhice ou covardia,conviver anos com o dolo sem nunca o denunciar.”Para ele,o Brasil “ está sem luz e sem referência”-Mas discordo da sua apreensãofinal,quando demonstra o receio de  o Exército ser chamado de volta pelo povo brasileiro.Sabemos nós  não fossem algumas  das nossas instituições ,como a Justiça, a imprensa livre, o Ministério Público e a Policia Federal,consolidadas ao lado da corrupção, há muito teríamos mergulhado na escuridão.Portugal  conhece muito bem seu antigo colonizado.