2.º turno será a batalha entre o antipetismo e o petismo

Mais do que uma disputa entre Bolsonaro e Haddad.

Fernando Martins

Num Brasil radicalmente dividido entre o antipetismo e o petismo, o segundo turno da eleição para presidente será disputado daqui a três semanas por Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Com 99,81% das urnas apuradas, o candidato do PSL fez 46,08% dos votos válidos (49,2 milhões de votos) e o petista, 29,21% (31,1 milhões de votos). Ciro Gomes (PDT), o terceiro, obteve apenas 12,48% (13,3 milhões de votos).

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Mais do que um confronto entre dois candidatos, o segundo turno desta eleição marca o ápice da radicalização política no Brasil que começou com as jornadas de junho de 2013 – como ficaram conhecidas as manifestações de rua daquele ano. Bolsonaro, de certa forma, é “filho” daquela insatisfação das ruas. E Haddad, a sua antítese.

Petismo e antipetismo vêm desde 1989, mas radicalização se acentuou em 2013

Desde 1989, quando os brasileiros voltaram a votar para presidente, após o fim da ditadura militar (1964-1985), o país oscila entre o petismo e o antipetismo (ou lulismo, como preferem dizer alguns analistas). Trata-se de uma divisão clássica nas democracias contemporâneas: a esquerda brasileira pós-redemocratização passou a orbitar em torno de Lula e do PT; e a direita (ou centro-direita), sobretudo do PSDB. Bolsonaro, muito mais à direita do que os tucanos, tomou esse posto. Foi beneficiado por uma série de circunstâncias.

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A tradicional polarização política do país se acentuou a partir de 2013, quando passou a tomar contornos de radicalização, embalada por uma insatisfação popular com a classe política como um todo.

As jornadas de junho começaram como um protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. Espalharam-se pelo país com uma pauta bem mais ampla, sobretudo a melhoria de serviços públicos e o combate à corrupção. Havia ainda uma rejeição muito grande aos partidos e aos políticos de modo geral.

As manifestações pegaram o governo da então presidente Dilma Rousseff de surpresa. Os protestos não tinham lideranças claras. Eram genuinamente populares. Estava terminada a lua de mel do Brasil com o PT, que havia tido como auge 2010, último ano do mandato de Lula – que deixou a Presidência com 87% de aprovação popular, segundo pesquisa Ibope daquela época.

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Petistas não esconderam a decepção com o que entendiam ser uma “ingratidão” contra um governo que “nunca na história desse país” havia feito tanto pelos brasileiros. Mas, sob pressão, Dilma anunciou cinco pactos em favor do Brasil: pela responsabilidade fiscal, pela reforma política e por melhorias na saúde, no transporte urbano e na educação.

Daquelas promessas, só uma viria a se transformar num programa afetivo: o Mais Médicos. Mas a presidente havia conseguido acalmar as ruas. Ao menos por um tempo. Também contou a seu favor a radicalização do movimento, que foi sequestrado pelos black blocs. Suas violentas ações de vandalismo afastaram a maioria dos manifestantes das ruas.

Lava Jato atingiu a classe política como um todo no imaginário popular

Veio 2014. A Lava Jato foi deflagrada e passou a revelar um imenso esquema de corrupção nos governos do PT – cujo objetivo, segundo a força-tarefa da operação, era perpetuar o partido no poder por meio do financiamento de campanhas eleitorais. A economia também começava a dar mostras de que ia mal. Mas a população deu um novo crédito a Dilma e a reelegeu.

Mas a paciência estava acabando. Logo a petista mostrou que o plano de governo que apresentou na campanha era um blefe para ganhar a eleição. Com a economia dando marcha à ré e a Lava Jato no encalço da cúpula petista, inclusive do ex-presidente Lula, a população saiu às ruas para pedir o impeachment.

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A insatisfação popular voltava a dar as caras – desta vez, com uma configuração mais à direita, o que não havia ficado evidente em junho de 2013. E começa a surgir, aqui e acolá, em meio aos protestos, pedidos por uma intervenção militar “saneadora”. O clima estava ficando favorável para um certo capitão da reserva.

Dilma caiu. Michel Temer (MDB) subiu: virou presidente, em 2016. Mas foi outro a ser tragado pelo avanço da Lava Jato. Bem como grande parte dos partidos brasileiros. Caso do PSDB, a sigla mais “anti-PT” no imaginário popular até então.

Bolsonaro encarna o “outsider”, mesmo sendo um político

A rejeição aos partidos, uma das marcas de 2013, havia crescido ainda mais. E o terreno estava preparado para o surgimento de um outsider, alguém de fora do sistema, para dar uma solução radical ao país: “quebrar” o sistema corrupto.

Alguns nomes chegaram a ser cotados encenar esse papel: o juiz Sérgio Moro, o apresentador de TV Luciano Huck, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Mas nenhum deles quis entrar na política. E o figurino coube em Bolsonaro. Deputado do chamado baixo clero da Câmara desde 1990, ele não é exatamente um outsider. Mas passou a ser visto assim pela população.

Bolsonaro foi favorecido pelas circunstâncias. Passou ileso pela Lava Jato, o que lhe garantiu a imagem de que não faz parte do “sistema”. Além disso, com um discurso visto como radical e politicamente incorreto, conquistou o eleitor conservador, de direita e assustado com a escalada dos índices de criminalidade.

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O candidato do PSL defende punição severa – quando não a morte – de bandidos, colocando-se contra os “direitos humanos para criminosos”. Prega o direito de o “cidadão de bem” ter arma para se defender. Combate o “kit gay” e a ideologia de gênero nas escolas. E elogia a ditadura militar. Com essa agenda, Bolsonaro catalisou em si a simpatia de quem é contra a esquerda em geral e o PT em particular.

Renascimento radicalizado do PT pós-impeachment “ajudou” Bolsonaro

Talvez Bolsonaro não tivesse chegado aonde chegou se o PT não tivesse ressurgido das cinzas após o impeachment de Dilma – um movimento que explica a chegada ao segundo turno do adversário do candidato do PSL: o petista Fernando Haddad.

A cassação de Dilma, em 2016, foi o ponto mais baixo da trajetória do partido. Mas a sigla conseguiu construir um discurso muito bem articulado de que a petista havia sido vítima de um golpe – que “colou” em parte expressiva da opinião pública. Paralelamente, a tese de que Lula sofre perseguição da Lava Jato também encontrou eco em parte da população.

Para fazer justificar a tese do golpe, o PT radicalizou o discurso. Passou a atacar a imprensa, que juntamente com a Justiça e o Ministério Público teriam articulado o “golpe”. Com o objetivo inflamar a militância, deu uma forte guinada à esquerda. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, chegou a elogiar o centenário da revolução comunista da Rússia, o guerrilheiro Che Guevara e o ditador venezuelano Nicolás Maduro.

O insucesso do governo Temer para retomar o crescimento da economia e seu envolvimento em casos de corrupção também ajudaram o PT a se reerguer. Parte do eleitorado entendeu que todos os políticos eram corruptos da mesma forma. E, corrupto por corrupto, pelo menos era melhor escolher alguém que fez algo. Ao olhar para trás, muito eleitores só viram uma imagem no deserto que se tornou a política: a de Lula.

Mesmo condenado e preso pela Lava Jato, o ex-presidente virou o favorito na eleição presidencial. Mas, como não podia concorrer por causa da Lei da Ficha Limpa, construiu a candidatura de um “poste”: Fernando Haddad. Deu certo. Pelo menos até agora.

Daqui a três semanas, o eleitor vai decidir para qual lado o país irá: o petismo ou o antipetismo.

Bolsonaro e Haddad vão disputar o 2.º turno