“Dilma, por ela mesma”.

 Por Dilma Rousseff*
…acredito que talvez ninguém aqui saiba, mas o estado de São Paulo começou a chover muito e o pessoal está saindo da chuva com razão, então o pessoal que não está protegido, esta saindo da chuva. É bom que chova, mas tem hora que quem está na chuva não quer pegar a chuva…
Imperdível e inacreditável discurso da presidente Dilma Rousseff, feito em cerimônia de entrega de unidades habitacionais do Residencial Nova Catanduva I e entregas simultâneas de unidades em Araraquara, Araras e Mauá/SP do Programa Minha Casa Minha Vida II – Catanduva/SP, dia 25 de agosto, transcrito no Portal do Planalto, site oficial da Presidência da República

Boa tarde,

(….CUMPRIMENTOS AOS PRESENTES)

(…) Eu sei que transformar em realidade o sonho da casa própria é algo que comove todas as famílias aqui presentes. Sei que nós aqui estamos falando de 2.555 famílias de todos esses residenciais. E sei que quando se realiza um sonho a gente pensa no futuro da nossa família, pensa no futuro dos nossos filhos e também pensa nas relações afetivas que a gente constrói que a gente tece com os amigos e com os parentes e com os nossos vizinhos.

E eu queria dizer uma coisa para vocês, dificilmente no passado se conseguiria realizar o sonho da casa própria para o qual o tanto vocês lutaram tanto vocês se esforçaram, porque se fosse tomar um empréstimo nos bancos, a prestação não ia caber na renda. Por isso, esse empreendimento Minha Casa Minha Vida, que é não só formado por telhas, por janelas, por tijolos, por paredes, por azulejos, por cerâmicas, mas, sobretudo, é formado pela força que é a base de qualquer sociedade que é a força da família.

… “Não sei se vocês viram as creches, não sei se vocês viram as creches, esta aqui é uma das creches que a gente tem construído e essa creche ela é talvez um dos edifícios mais bonitos, em várias cidades, não é só aqui, mas ela é um equipamento, se chama equipamento, ou seja, ela é uma construção que a mim me comove. Por que me comove? Porque nós estamos colocando na creche o que há de melhor para as crianças”…

Esse empreendimento, ele é possível porque nós fizemos uma parceria. Nessa parceria o governo federal, que é mais forte, porque representa todo o país e arrecada impostos de todo mundo, entra com a maior parte, nós entramos em média, com 70 mil reais que custa uma dessas casas, com em torno de 55 mil e o governo do estado entra com 15 mil e a prefeitura entra com uma série de empreendimentos que garante a sustentabilidade, ou seja, que garante que tenha esgoto, que tenha água tratada. Enfim, que tenha aquelas condições para pessoas viverem.

… “Aqui quando cheguei eu perguntei para o Edinho Araújo: Edinho, chove muito aqui em Catanduva? Ele disse: Chove não. Perguntei: Edinho, faz muito frio aqui em Catanduva? Ele disse: Faz não. Mas eu quero dizer para vocês, mesmo não fazendo muito frio, fazendo um certo frio de manhãzinha, que é sempre frio, eu fico muito orgulhosa também do equipamento do aquecimento solar térmico, que tem nos telhados de todas as casas. Mesmo com o Edinho tirando a minha alegria e dizendo, “não faz muito frio”. Mas eu disse pra ele: Duvido que você tome banho frio, Edinho, duvido. E disse também para o prefeito Valdomiro que estava com a gente. O prefeito concordou comigo, “eu não tomo banho frio”. Agora o Edinho inventou que toma um banho frio como a última ducha, de qualquer jeito as outras duchas precisa de água quente e essa água quente é importante porque a pessoa não vai pagar conta de luz com ela”…

Mas aqui hoje eu vi uma coisa fundamental, esse é o primeiro empreendimento que já contratamos com a creche, nós já contratamos com a escola, e isso vai permitir o que o prefeito disse que amanhã as crianças possam entrar na sala de aula. Não sei se vocês viram as creches, não sei se vocês viram as creches, esta aqui é uma das creches que a gente tem construído e essa creche ela é talvez um dos edifícios mais bonitos, em várias cidades, não é só aqui, mas ela é um equipamento, se chama equipamento, ou seja, ela é uma construção que a mim me comove. Por que me comove? Porque nós estamos colocando na creche o que há de melhor para as crianças. Vocês olhem não só em termos da sua construção, das suas salas e do seu berçário, mas também com ajuda dos prefeitos, colocamos as mesinhas, os bercinhos, colocando todo equipamento para poder receber as crianças.

Então foi uma parceria que uniu os esforços do governo federal, do governador Alckmin, que permite que a construção seja maior, seja melhor, e a participação do prefeito, que conduz a gente a realizar esse projeto. E ele é muito importante. Aqui quando cheguei eu perguntei para o Edinho Araújo: Edinho, chove muito aqui em Catanduva? Ele disse: Chove não. Perguntei: Edinho, faz muito frio aqui em Catanduva? Ele disse: Faz não. Mas eu quero dizer para vocês, mesmo não fazendo muito frio, fazendo um certo frio de manhãzinha, que é sempre frio, eu fico muito orgulhosa também do equipamento do aquecimento solar térmico, que tem nos telhados de todas as casas. Mesmo com o Edinho tirando a minha alegria e dizendo, “não faz muito frio”. Mas eu disse pra ele: Duvido que você tome banho frio, Edinho, duvido. E disse também para o prefeito Valdomiro que estava com a gente. O prefeito concordou comigo, “eu não tomo banho frio”. Agora o Edinho inventou que toma um banho frio como a última ducha, de qualquer jeito as outras duchas precisa de água quente e essa água quente é importante porque a pessoa não vai pagar conta de luz com ela. Então, eu considero muito importante esse equipamento que está no telhado aqui de todas as moradias, que é solar térmico.

Além disso, eu queria dizer uma outra coisa pra vocês, nós aqui sabemos como é essa questão da casa para dentro. Da casa para dentro, todos nós sabemos que na maioria das casas, eu não vou dizer em todas, mas na maioria das casas quem manda é a mulher. Então, a casa hoje ela ainda não tem um jeito de casa que a gente fala, aquele cantinho da gente, mas eu tenho certeza que se eu voltar daqui um ano, cada casa vai ter um jeito próprio, um jeito diferente, porque nessa casa, as mulheres vão dar aquele jeito que torna a casa o lugar dos nossos sonhos. Porque os nossos sonhos, eles são feitos de uma matéria muito especial. Essa matéria é a capacidade que nós pessoas, cidadãos desse país temos de transformar, de mudar, de melhorar onde nós estamos. E aí, eu quero dizer uma coisa para vocês, tenho certeza que vocês se esforçaram, que vocês correm atrás, que vocês constroem o caminho de vocês.

O papel de um governo não é achar que fez tudo para as pessoas não reconhecer que numa família, não é? O rapaz, por exemplo, que chega numa faculdade, que consegue um emprego técnico, que faz um curso técnico. Ele conseguiu aquilo pelo seu esforço. Muitos vão falar: “Porque minha mãe e meu pai me incentivaram”. O que é o papel então do governo? O papel do governo é dar oportunidades iguais para todas as pessoas. Daí que a creche de qualidade é importante, porque ela ataca a raiz de desigualdade que é a diferença de oportunidades desde que a pessoa nasce.

Então, da creche melhor, de ter acesso a uma casa melhor, pagando uma prestação menor, é se livrar do aluguel, é se livrar de morar de favor e é se livrar também de estar numa área de risco. Tudo o que está aqui daqui para diante é responsabilidade de vocês. Até aqui nós viemos, daqui para frente é tudo com vocês para garantir que esse residencial, o residencial lá de Araras, de Araraquara e de Mauá sejam, de fato, lares que abrigam e protejam as crianças.

O programa chama Minha Casa Minha Vida porque a casa é talvez o local mais importante para a vida de cada um de nós. É para onde nós vamos depois do trabalho, depois do estudo, nós vamos procurar conforto, procurar apoio e, sobretudo, procurar acolhimento, sobretudo, procurar calor humano.

…”Nós construímos o programa Mais Médicos. Esse programa Mais Médicos ele levou mais de 2. 528 médicos para aqui a cidade de, aliás, para as cidades de São Paulo. Eu acredito que talvez ninguém aqui saiba, mas o estado de São Paulo começou a chover muito e o pessoal está saindo da chuva com razão, então o pessoal que não está protegido, esta saindo da chuva. É bom que chova, mas tem hora que quem está na chuva não quer pegar a chuva. Então é essa contradição sempre. Eles têm de sair, de fato, porque começou a chover forte”…

Quero dizer para vocês então, que eu tenho certeza que hoje aqui a gente deu um grande passo para construir o futuro de vocês. Quero dizer que o Brasil e o meu governo tem muito orgulho do dinamismo, da capacidade e do trabalho do povo paulista. É um povo trabalhador, é um povo que constrói, é um povo que supera desafios e dificuldades. Por isso, eu tenho certeza que vocês vão entender que quanto mais rápido nós formos capazes juntos de superar as nossas dificuldades, que são dificuldades pelas quais todos os países do mundo estão passando, uns mais outros menos. A segunda maior economia do mundo, a economia chinesa, ontem teve um momento de muita dificuldade e nós torcemos para que essas dificuldades econômicas e financeiras sejam superadas.

Nós aqui em São Paulo temos feito um esforço para, em parceria com os governos, construirmos obras e tomarmos iniciativas. Eu quero dizer para vocês uma coisa que é pouco sabida. Nós construímos o programa Mais Médicos. Esse programa Mais Médicos ele levou mais de 2. 528 médicos para aqui a cidade de, aliás, para as cidades de São Paulo. Eu acredito que talvez ninguém aqui saiba, mas o estado de São Paulo começou a chover muito e o pessoal está saindo da chuva com razão, então o pessoal que não está protegido, esta saindo da chuva. É bom que chova, mas tem hora que quem está na chuva não quer pegar a chuva. Então é essa contradição sempre. Eles têm de sair, de fato, porque começou a chover forte.

Então queria dizer para vocês, sabem quais são as cidades e o estado que mais recebeu médicos do Mais Médicos? Porque todo mundo pensa que é deve ser a Amazônia, outros falam: não, é o interior do Nordeste. Não. O estado que recebeu maior número de médicos porque não tinha médicos suficientes é o estado de São Paulo.

O programa Mais Médicos ele veio para resolver um grave, um gravíssimo problema no atendimento da atenção básica. O governador Alckmin é médico. Ele sabe que 80% dos nossos problemas de saúde pública se resolvem num posto, numa unidade básica de saúde. Por isso, nós fizemos o programa Mais Médicos. Esses 2.528 médicos que estão aqui, eles vão nos ajudar a passar esse momento em que ainda faltam médicos brasileiros, que nós não temos médicos brasileiros suficientes. Mas eu tenho certeza que os prefeitos aqui sabem que, sem esses médicos, não haveria atendimento nos Postos de Saúde adequado. Agora nós vamos formar cada vez mais médicos brasileiros, e a boa notícia é que na última chamada, todos os médicos que compareceram são médicos formados aqui Brasil.

Eu quero dizer também que eu tenho muito orgulho das escolas federais aqui do estado, das 30 escolas federais, técnicas que são importantes para a formação dos jovens. Doze escolas técnicas federais foram feitas no meu primeiro governo.

Quero também destacar que 1 milhão de paulistas conquistaram o direito de estudar em universidades privadas pelo programa federal Prouni e pelo Fies. E que 1,4 milhão de jovens trabalhadores e empreendedores tiveram oportunidade de se qualificar melhor pelo Pronatec. Por que estou falando isso? Eu estou falando isso porque para nós é importante perceber que esses programas terão continuidade. E quero dizer também que essa parceria entre o governo federal e o governo do estado, ela vai continuar beneficiando também toda a ampliação da oferta de água aqui no estado. Nós já financiamos, em uma parceria no governo estadual, duas obras importantes: a interligação das represas de Jaguari e Atibainha e o sistema São Lourenço.

Tenho certeza que, se for necessário mais obras para viabilizar oferta de água aqui em São Paulo, mais obras nós faremos em parceria com o governador. Esses são alguns dos exemplos que nós, que nós tivemos de obras aqui. Existem muitas outras na área de saneamento, no investimento em rodovias e eu quero dizer pra vocês: tenho certeza que essa parceria governo federal, governo do estado e prefeituras, ela vai continuar e ela está baseada em uma visão democrática e republicana da coisa pública.

Nós podemos divergir, mas nós temos de agir juntos no que se refere a administração para proteger os interesses da população. Quando a gente age juntos, nós somos capazes de realizar mais e melhor.
Finalmente, eu quero dizer para vocês, nós vamos superar esse momento de dificuldades. Todos nós que somos brasileiros e brasileiras sabemos que temos capacidade de superar desafios, de apresentar e de construir caminhos e de chegar a resultados. Quanto mais rápido fizermos isso, mais rápida será a superação das nossas dificuldades. A gente tem de enfrentar os problemas de frente, jamais é aceitável que se torça para o pior acontecer porque quando acontece o pior quem paga é a população do País.

Daí, porque eu termino dizendo para as famílias que receberam as suas casas hoje. Cuidem dessas casas. A partir de agora é um patrimônio de vocês, é uma riqueza de vocês. Quanto mais bonito for esse residencial, quanto mais conservado for esse residencial, quanto mais árvores vocês plantarem, quanto mais vocês preservarem as pinturas, mais valorizadas essas casas serão. Vocês aqui têm a oportunidade na mão de vocês. A creche está aqui perto, a escola vai estar aqui perto, o posto de saúde vai estar aqui dentro do residencial e o posto de segurança também.

Então, este é o residencial que vocês também podem usufruir porque vai ter quadra de esporte, mas, sobretudo, preservem, criem uma espécie de condomínio. O prefeito está colocando uma empresa para dar suporte para isso. Criem e preservem. Esse patrimônio é de vocês. E agora quem cuida da porta para fora são os homens, da porta para dentro são as mulheres.

Um abraço!

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Dilma RousseffÉ presidente da República do Brasil.

DILMA E MARCELO ODEBRECHT SE ASSUMEM COMO TRAIDORES DA PÁTRIA

Prepotência de Odebrecht assustou até o advogado dele

Carlos Newton

O depoimento do empresário Marcelo Odebrecht, presidente do Grupo Odebrecht, na CPI da Petrobras,  foi revelador de uma cultura muito peculiar, coincidente com a visão da presidente Dilma, que também censura os colaboradores da Justiça na operação Lava Jato. Na ótica do empresário, os colaboradores são autênticos “traidores”. Para ele, o dever de lealdade é um imperativo moral, tanto quanto aquele que deve valer entre irmãos, amigos e familiares. Sua fala nos remete ao discurso da Máfia Italiana, que sempre pregou o dever de lealdade entre seus membros e colaboradores.

O empresário afirmou que “quem nos conhece reconhece”, acrescentando seu “legado tem valores morais dos quais nunca abrirá mão”. E arrematou com orgulho incontestável: “Entre esses valores, desde a criação, quando lá em casa minhas meninas tinham uma discussão ou uma briga”, dizia ‘quem fez isso?’, e talvez brigasse mais com quem dedurou do que quem fez os fatos”, sublinhando orgulhoso  sua tábua de valores e ensinamentos transmitidos às filhas.

ENORME DESENVOLTURA

Alertado por seu advogado Nabor Bulhões, que ficou inquieto com aquela postura insólita do cliente, e atendendo sugestões ao pé do ouvido, o empresário Marcelo Odebrecht resolveu adicionar que não teria o que delatar, pois não cometeu nenhum crime. Poderia ter ficado em silêncio, mas sua postura chamou a atenção, não apenas porque mostrou enorme desenvoltura, confiança e tranquilidade para falar abertamente aos políticos na CPI, mesmo estando sob custódia do Estado, mas, sobretudo, pela ousadia da mensagem, ao declinar abertamente valores morais contrários ao instituto da colaboração premiada e até favorável ao silêncio entre criminosos ou infratores.

Razões de lealdade obscura permeiam essa aderência a uma praxe de negócios do mundo subterrâneo. Não estamos aqui falando de cláusulas de confidencialidade, mas de pactos de corrupção, de lavagem de capitais, ou de crimes contra a Administração Pública, um silêncio que contrasta com interesses públicos. É possível exigir lealdade ou segredo eterno entre partícipes dessas práticas com base em valores morais? Como é factível aceitar essa espécie de discurso público, seja de advogados, de empresários ou de autoridades?

PREPOTÊNCIA

Vilanizar a colaboração premiada, sem sequer examinar seus contornos jurídicos, que pressupõem limites evidentes, significa, no mínimo, falta de boa fé no debate público, um sinal de ignorância ou prepotência. No caso de Marcelo, sua tranquilidade é tamanha que tudo indica ter informações de que em breve ganhará liberdade por algum “habeas corpus”, fruto daquela velha e arraigada sensação de impunidade que domina esse andar de cima da sociedade brasileira, especialmente quando se trata da caminhada nos tribunais superiores, onde se anulam as grandes operações da Justiça.

Pode até ser que Marcelo Odebrecht guarde alguma informação privilegiada que nós, pequenos mortais, não tenhamos , e daí o ar de superioridade e aquele sorriso estampado no rosto. Por isso, também, não hesitou em exibir toda sua tranquilidade e seu discurso. Entretanto, há uma inequívoca distorção na postura de Marcelo Odebrecht, que passa uma imagem deformada à sociedade brasileira, mas, também, reveladora da subjetividade do sujeito falante, pertencente a um segmento dominado por cultura específica e por valores deformados da história brasileira: patrimonialismo, confusão entre o público e o privado, impunidade.

SEUS AMIGOS

Os políticos que o contratam são seus “amigos” e o “ex-presidente” da República chegou a ser quase um funcionário de luxo de sua empresa, ao ponto de ganhar apelido de “Brahma”. De onde poderia vir a ojeriza aos colaboradores? Ora, do fato de que entregam seus comparsas e auxiliam a desmantelar estruturas criminosas. O colaborador pode mentir e caluniar? Pode, claro, mas esse é um problema que a Justiça deve enfrentar dentro do sistema jurídico, pois a palavra dos colaboradores, por si só, não tem valor isolado.

E colaboradores mentirosos sairão extremamente prejudicados, pois terão admitido fatos, confessado ilícitos, e poderão perder suas imunidades. Ou seja, quem entra no circuito da colaboração premiada, deve estar preparado para assumir riscos. Até porque, como se sabe, um colaborador faz relatos que devem ser acompanhados de provas, e tais provas devem ser homologadas pela Justiça, à luz do contraditório e do devido processo legal.

Repita-se: um colaborador mentiroso pode ter seus benefícios cassados pelo Poder Judiciário sendo obrigado, inclusive, a responder por denunciação caluniosa. Quando se cumprem as expectativas institucionais legítimas, os colaboradores dispõem de informações valiosas, oriundas das estruturas criminosas – pelos motivos mais variados – e auxiliam as autoridades públicas, aportando extratos bancários, informações contábeis, nomes de “laranjas”, nomes de empresas, o trajeto do dinheiro, testemunhas, dentre outros elementos. Assim, viabilizam punições, recuperação de ativos, e combate à impunidade.

DISCURSO RETRÓGRADO

O discurso retrógrado daqueles que simplesmente rejeitam esses mecanismos não tem lugar no mundo contemporâneo. Como é possível considerar imoral que alguém colabore com a Justiça trazendo essas provas para incriminar antigos companheiros de crime? Essa seria uma lógica de um delator: ele se volta contra seus antigos comparsas e passa a colaborar com autoridades do Estado.

Quando a presidente da república passa mensagens à sociedade de que os “delatores” seriam “traidores” da pátria, realmente acontece uma inversão de valores.  Não é válido passar a mensagem de que o silêncio entre criminosos compensa ou que é um valor moral.  A presidente da República não dá exemplo de pátria educadora: ela deseduca.

ATO FALHO

Ao alegar que não fez colaboração premiada porque não é “dedo-duro”, o empresário Marcelo Odebrecht, em plena CPI, cometeu, no mínimo, um “ato falho”, expressão de Freud, que significa dizer: um ato com significado psíquico pleno, revelando muito mais do que se possa supor superficialmente, como fragmento do que está guardado no inconsciente e que escapou em algum momento. Trata-se de uma expressão de intenção omissiva ou de confronto entre intenções opostas, uma delas inconsciente ou oculta.

Não por outra razão, despertou imediata reação de seu advogado, que tentou ainda consertar o erro, fruto da arrogância ou impulsividade. O inconsciente, aqui, possivelmente está na revelação de que existiria, sim, algo para delatar, mas que, por aderência a esta código “moral” duvidoso, que permeia gerações, não será revelado à Justiça.

A corrupção, no Brasil, e nas empreiteiras, vem de longe. Em suas declarações, Marcelo Odebrecht só deixou clara uma coisa – sua certeza da impunidade.

A HORA DA “JARDINEIRA”

Carlos Chagas

O contingente da recém-criada Força Aérea Brasileira chegou a Napoles, na Itália, para incorporar-se aos quadros que lutavam contra o nazismo. A Força Aérea dos Estados Unidos preparou magnífica recepção a seus colegas do Brasil, com impecável desfile militar e banda de música, chegando ao clímax quando o general comandante americano, depois de mandar entoar o  Hino dos Aviadores de seu país, dirigiu-se ao nosso comandante,  coronel Nero Moura, anunciando no microfone que agora ouviríamos o Hino da Força Aérea Brasileira. O diabo é que as coisas tinham andado rápido demais. Se dispúnhamos de aviadores, ainda não possuíamos hino. O constrangimento parecia fatal quando um sargento sussurrou ao nosso  comandante: “Coronel, mande tocar a “Jardineira”.

Nero Moura ordenou que a banda atacasse com a marchinha vitoriosa no Carnaval daquele ano, que o Brasil inteiro conhecia e cantava. Foi um sucesso absoluto, a ponto de o general americano cumprimentar efusivamente o comandante brasileiro e até pedir a partitura da “Jardineira”, que imaginou ser o hino da nossa Força Aérea…

Por que se conta essa historinha?  Porque a improvisação sempre foi uma característica brasileira. Deveria a presidente Dilma parar de bater cabeça com seus ministros e líderes políticos, sem saber exatamente o que o governo pode fazer para enfrentar a crise econômica. Que tal inundar o país com um plano em condições de devolver o otimismo a empresários e trabalhadores?  Proibir demissões, contratar obras públicas, jamais aumentar impostos, mas cortar gastos na máquina pública e também no setor privado. Interromper, pelo tempo que for necessário, o pagamento de extorsivos juros devidos à divida pública, que só beneficiam os especuladores. Enquadrar os bancos e limitar seus abomináveis lucros obtidos às custas da economia nacional. E quanta coisa a mais, sob os acordes da “Jardineira”, ou melhor, da improvisação otimista que nunca nos tem faltado?

QUEM MANTERÁ A ORDEM?

Continuando as coisas como vão, ou seja, com o governo sem saber o que fazer  diante da crise, multiplicando-se as demissões na indústria, no comércio, nos serviços, na educação e na saúde, breve se tornará inevitável a reação das massas. Certas coisas pegam feito sarampo. A invasão de algum supermercado na periferia de alguma favela poderá acender um rastilho impossível de ser contido.  Nessa hora, fazer o quê?

É preciso evitar a explosão. Depois, todos lamentaremos os estilhaços.

O PAÍS DO FUTURO ESTÁ APAIXONADO PELO SEU PASSADO

RONALDO MOTA

Se há uma sensação coletiva que se possa chamar de generalizada neste momento no Brasil é a de que, mais uma vez, o almejado futuro não se materializou. Ou seja, o sonhado desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural sustentável dá espaço ao sabor de frustração e ficamos, os mais otimistas, no aguardo de um novo ciclo, cuja data de inauguração não foi sequer anunciada.

Sabemos crescer, mas não sabemos fazê-lo de forma sustentável. Temos uma riqueza natural e humana reconhecida mundialmente, mas ela parece periodicamente perder para nossas fragilidades. Identificar as complexas causas das recorrentes derrotas é tarefa hercúlea e fruto de muita controvérsia. Tal cenário, onde a esperança parece adormecida, é acompanhado de modesta inspiração para produção cultural.

Um destacável reflexo de nossa pobreza cultural contemporânea são nossos olhos voltados ao passado como nunca. No campo da música, jamais se ouviu com tanto vigor os artistas das décadas de 60 e 70. No teatro, particularmente os musicais, é sintomático que quase todos os grandes sucessos dos últimos anos estejam dedicados a recuperar a vida de artistas antigos. Isso tudo talvez reflita um país desgostoso com seu presente, sem claras perspectivas para seu futuro e buscando no seu passado recente motivos para continuar a crer na sua história.

No cinema mesmo com novidades pontuais de valor na praça, a revalorização recente de personagens antigos como José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, é sintoma claro da possível ausência de produção atual mais significativa.

Ainda que não seja o objetivo deste breve texto apontar possíveis causas, dado que por serem múltiplas e complexas qualquer simplificação estaria errada ou insuficiente, não há como não perceber que falhamos, ao menos parcialmente, na educação. Nesta área tivemos sim sucessos, inegáveis por sinal, como universalizar a educação fundamental, ampliar de forma significativa o acesso ao ensino superior ou a construção eficiente de um respeitável sistema nacional de pós-graduação.

Por outro lado, claramente falhamos em conjugar qualidade e quantidade. Quando universalizamos ou ampliamos de forma significativa, o fizemos com rebaixamento de qualidade. Quando ofertamos qualidade, o fizemos para poucos, muito poucos. A inovação que deixamos de criar foi ofertar qualidade para muitos. Esta sim, a meu ver, se não é a única, é a principal razão da sensação de fracasso que nos move a olhar para trás e de forma saudosista pedir mais uma chance de sermos, mais uma vez, o país do futuro.

Eppur si muove e voltaremos ao tema com mais detalhes posteriormente.

 

Ronaldo Mota é reitor da Universidade Estácio de Sá