Assalto na agência do Bradesco em Vargem-Grande Ma

motocicleta abandonada pelos bandidos

  

Na tarde desta quinta feira (17), a agência do Bradesco do município de Vargem grande -Ma foi mais uma vez alvo de bandidos assaltantes. O assalto aconteceu aproximadamente as 12h e 10, quando 5 elementos armados de revólveres chegaram em 3 motos, entraram na agência e anunciaram o assalto. Os bandidos, segundo testemunhas, saíram levando uma boa quantia em dinheiro, que ainda não foi confirmado o valor pelos funcionários. No momento da fuga, uma das motos dos assaltantes, estava com um dos  pneus seco e por isso, fora abandonada por eles na porta da agência. Por conta do inesperado, os assaltantes fugiram em uma  Honda Bros de placa NXP-3877 do proprietário Aldemir Almeida Silva conhecido popularmente como (Dedé),residente do povoado Limoeiro e que possivelmente, estaria dentro da agência no momento do assalto. A policia estar diligenciando para capturar os bandidos, e a equipe do terceiro pelotão de Vargem -Grande  recebeu reforço da Força Tática de Itapecuru- Mirim. Até o momento ninguém foi preso. A motocicleta foi localizada no bairro Rosalina nas proximidades da caixa d’água e se encontra na sede do terceiro batalhão de Vargem-Grande .

Cabral é preso pela Lava-Jato, acusado de liderar grupo que desviou R$ 224 milhões

Sergio Cabral é conduzido na garage do edifício no Leblon

Chico Otavio e Daniel Biasetto
O Globo

Agentes da Polícia Federal e da força-tarefa do Ministério Público Federal do Rio cumprem nesta manhã de quinta-feira dois mandados de prisão preventiva contra o ex-governador Sérgio Cabral – já preso – e outras oito pessoas ligadas ao peemedebista, acusado de liderar um grupo que desviou cerca de R$ 224 milhões em contratos com diversas empreiteiras, dos quais R$ 30 milhões referentes a obras tocadas pela Andrade Gutierrez e a Carioca Engenharia.

ADRIANA ANCELMO – A ex-primeira-dama Adriana Ancelmo é um dos alvos, porém, ela será levada para depor na sede da PF local em condução coercitiva. Adriana, que deve ser liberada após prestar depoimento, chegou a ter o seu pedido de prisão pelo MPF analisado pela Justiça, mas negado pelo juiz Marcelo Bretas.

Os agentes entraram dentro do apartamento do ex-governador, no Leblon, Zona Sul do Rio. Até o momento dez pessoas foram presas: Cabral, Wagner Jordão Garcia, ex-assessor do ex-governador, o ex-secretário de Governo Wilson Carlos, com dois mandados de prisão também (temporária e preventiva), e outras sete pessoas.

OUTROS ALVOS – Além de Cabral, que já está na sede da PF, são alvos da operação o ex-secretário estadual de Obras Hudson Braga, e o ex-assessor do governador Carlos Emanuel de Carvalho Miranda, o Carlinhos, ex-marido de uma prima de Cabral. Outros operadores são alvos da ação: José Orlando Rabelo e Luiz Paulo Reis.

No total, há 34 mandados de busca e apreensão em três cidades além do Rio – Mangaratiba, Paraíba do Sul e Itaipava, e outros 14 de condução coercitiva.

Todos os alvos de prisão preventiva deverão ser levados para a Superintendência da PF no Rio, e após prestarem depoimento, serão encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) para realizar exames de corpo de delito.

TUMULTO E PROTESTO – O grupo de intervenção tática da PF disparou gás de pimenta quando os carros da polícia deixaram o apartamento de Cabral. Houve tumulto e protesto de populares que gritavam “Lincha”, “Lincha”, “Lincha”.

Repórteres foram atingidos pelo gás, entre eles, o da TV GLOBO Paulo Renato Soares, que ficou com sérias dificuldades para enxergar.

Autorizada pelos juízes Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal do Rio, e Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, a operação batizada de “Calicute” – referência às tormentas enfrentadas pelo navegador Pedro Álvares Cabral a caminho das Índias – acontece pouco mais de cinco meses depois da estreia da Lava-Jato no Rio e é resultado de uma esforço conjunto do MPF e seus procuradores Lauro Coelho, Eduardo El Hage, Rodrigo Timóteo e José Augusto Vagos, com a Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros da Polícia Federal (Delecor). A ação marca também a inédita cooperação entre a Justiça do Rio e a de Curitiba, responsável pelas 36 fases deflagradas até aqui.

MUITOS  CRIMES – Cabral, o ex-governador, é acusado pela Lava-Jato dos crimes de corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Os desvios teriam sido feitos em contratos com as empreiteiras Andrade Gutierrez, Carioca Engenharia, entre outras, em obras como reforma do Maracanã, o Arco Metropoliltano e PAC Favelas em troca de aditivos em contratos públicos.

A investigação teve como ponto de partida as delações de Clóvis Primo e Rogério Numa, executivos da Andrade Gutierrez, feitas no âmbito do inquérito do caso Eletronuclear. Os dois revelaram à força-tarefa que os executivos das empreiteiras se reuniram no Palácio Guanabara, sede do governo, para tratar da propina e que houve cobrança nos contratos de grandes obras.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –  Cabral e Garotinho presos, Adriana e Rosinha a um passo da cadeira. E nem foi preciso chamar os militares. Parece um sonho. Ainda bem que, na democracia, sonhar ainda não é proibido. Enquanto isso, no Supremo, aquela espantosa lentidão judiciária reina, absoluta. (C.N.)

Youssef deixa a prisão nesta quinta-feira e diz que passará a viver honestamente…

O doleiro Alberto Youssef, preso da Operação Lava Jato que está detido na sede da Policia Federal em Curitiba, sai para depor na sede da Justiça Federal, no começa da tarde desta quarta feira (4) (Foto: Vagner Rosário/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Se voltar a delinquir, Youssef pegará 30 anos de cadeia

Ricardo Brandt e Fausto Macedo
Estadão

O estampido da tranca que separa a rua do cárcere, na sede da Polícia Federal, em Curitiba, vai martelar pela última vez na consciência de Alberto Youssef, nesta quinta-feira, 17. O doleiro, acusado pela Operação Lava Jato de ser o principal operador de propinas no bilionário esquema de corrupção na Petrobrás, deixará a cela de 12 metros quadrados, em que passou os últimos 2 anos e 8 meses de sua vida, para ir para casa.

Dono da mais complexa e sofisticada lavanderia de dinheiro, a serviço de empreiteiras, partidos, agentes públicos e políticos envolvidos no esquema Petrobrás, Youssef cumprirá mais 4 meses de prisão domiciliar, antes de se tornar um homem livre – o que acontecerá no dia 17 de março de 2017.

O direito à liberdade foi o prêmio obtido pelo doleiro, em troca da confissão de culpa nos crimes contra a Petrobrás e da entrega de provas de novos delitos, ainda desconhecidos da força-tarefa da Lava Jato. Pelo acordo, fechado em setembro de 2014, sua pena pena máxima de prisão ficou limitada a 3 anos.

PRIMEIRO DELATOR – Junto com o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa, Youssef foi o primeiro delator da Lava Jato. Os dois confessaram à Justiça serem braços do PP no esquema de arrecadação de propinas na Petrobrás. Suas revelações transformaram as investigações de corrupção e lavagem de dinheiro em duas obras da de refinarias da estatal – Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, e Getúlio Vargas (Repar), no Paraná – no maior escândalo de corrupção do Brasil – provocando ainda uma enxugada de delações, são 57 até aqui.

“Não sou o mentor nem o chefe desse esquema”, afirmou Youssef, no dia 8 de outubro de 2014, na primeira confissão do caso diante do juiz federal Sérgio Moro. “Sou apenas uma engrenagem desse assunto que ocorria na Petrobrás. Tinha gente muito mais elevada acima.”

A partir das confissões de Youssef e Paulo Roberto Costa – que também deixou a cadeia, no último mês -, a Lava Jato tomou nova proporção. São mais de 80 condenados, penas que somadas ultrapassam 1 mil anos de prisão, mais de R$ 6,4 bilhões em propinas e a descoberta que corrupção era a “regra do jogo” em todos os contratos do governo.

TUDO CONFIRMADO – Para delegados e procuradores da força-tarefa, apesar de ser um “profissional do crime”, em quem não se deve confiar, Youssef foi, até aqui, um dos melhores delatores da Lava Jato. “Tudo que ele revelou na delação se comprovou”, afirmou o delegado Márcio Anselmo, da equipe que originou as investigações em Curitiba.

Braço direito do deputado federal José Janene (morto em 2010) – o ex-líder do PP que deu origem à Operação Lava Jato -, Youssef foi alvo principal da primeira fase das investigações, deflagrada em 17 de março de 2014.

Era segunda-feira e o relógio da recepção do Hotel Luzeiros, em São Luis, capital do Maranhão, marcava 6h, quando uma equipe de federais subiu ao sétimo andar para prender o hóspede do quarto 704. Velho conhecido das autoridades de outras prisões, o doleiro chegara acompanhado de um amigo na noite de domingo carregando duas malas e um caixa de vinhos embaixo do braço. Uma delas, guardava R$ 1,4 milhão em dinheiro vivo. Era propina da empreiteira UTC a ser entregue na tarde seguinte a um secretário do governo Roseana Sarney (PMDB), em contrapartida a liberação “adiantada” de dinheiro de dívida de mais de R$ 100 milhões que o grupo tinha a receber do Estado.

IMAGENS DAS CÂMERAS – Três horas antes dos policiais baterem à porta do quarto 704, com vista para o mar, Youssef desconfiou do risco de ser preso e levou a mala milionária até o quarto do comparsa. Assim, mesmo preso, conseguiu efetivar o pagamento da propina, como revelaram à PF, posteriormente, as imagens das câmeras de segurança do hotel.

Os riscos da carreira de trapaceiro e os ensinamentos e sons que guardam a prisão, Youssef conhece bem. Nascido em Londrina, filho de pai libanês e mãe brasileira, Youssef vendia salgado nas ruas e ainda jovem virou contrabandista, trazendo mercadorias não declaradas do Paraguai para vender no Brasil. Considerado um criminoso hábil, logo deixou de cruzar a fronteira com mercadorias não declaradas, passou a enviá-las via Correios. Foi detido cinco vezes nesse período.

Em 2003 foi preso no primeiro grande escândalo de corrupção, como um dos operadores das contas CC5 (de não residentes), usadas para remessa ilegal de mais de R$ 30 bilhões ao exterior, na década de 1990, por meio do antigo Banco do Estado do Paraná, o Banestado.

PRIMEIRA DELAÇÃO – Em 2004 fechou um dos primeiros acordos de colaboração da Justiça brasileira, como o Ministério Público Federal de Curitiba, homologado pelo, até então, desconhecido juiz Sérgio Moro. Dos sete anos que pegou, cumpriu 1 e meio.

Nas ruas, Youssef, o delator do Banestado, se reergueu. Montou empresas de fachada como a MO Consultoria, Empreiteira Rigidez, GFD Investimentos, comprou hotéis, empresa de turismo. Mas tudo voltado à prática da lavagem de dinheiro, segundo a Polícia Federal. “Ele se reestruturou ainda mais poderoso e influente”, afirmou um dos procuradores que mandou prender o doleiro em 2002.

Na Lava Jato, Youssef representa a síntese dos diversos tipos de integrantes do núcleo de operadores de propina, que mantinha a corrupção entre empresários e políticos em funcionamento. Era doleiro, entregador de dinheiro, fornecedor de contratos e notas falsos, lobista, contato de partidos e contador do caixa 2 de empresas como a UTC e OAS, segundo ele mesmo confessou em sua delação.

ARREPENDIDO – Preso pela última vez em 2014, Youssef perdeu os benefícios da primeira delação homologada por Moro no caso Banestado. Seis meses depois, fechou novo acordo, desta vez com a força-tarefa da Lava Jato.

Distante das grades, mas não livre da Justiça, Youssef está condenado pelo juiz federal Sérgio Moro como “um criminoso profissional” em seis processos criminais já concluídos da Lava Jato e é alvo de mais uma dezena deles na 13ª Vara Federal, em Curitiba, alguns ainda sem sentença, ou suspensos ou com absolvições.

Aos 49 anos, com problemas do coração – chegou a ser internado duas vezes durante o período de cárcere -, Youssef colocará nesta quarta-feira, 16, uma tornozeleira eletrônica na Justiça Federal, para deixar a carceragem da PF.

ÚLTIMA CHANCE – Se for novamente pego no mundo do crime, Youssef voltará para a cadeia, de onde, dificilmente, conseguirá nova chance de liberdade, avaliam investigadores e advogados do caso Lava Jato.

Pelo acordo de delação, Youssef não poderá cometer qualquer tipo de crime por um prazo de 10 anos, ficando sujeito a responder aos processos e às penas que lhe forem imputadas na Lava Jato – 122 anos de cadeia. Após o prazo, se for pego cometendo novo crime, também voltará a responder às ações da Lava Jato, respondendo às tipificações que ainda não tenham prescrito.  Ele devolveu cerca de R$ 50 milhões. E seu advogado diz que ele vai se tornar empresário e viver honestamente.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A libertação de um trapaceiro como Youssef é o preço que se paga pela devassa da maior organização criminosa já descoberta no mundo, chefiada pelo próprio presidente da República, que havia sido eleito pelos brasileiros justamente para moralizar o país. E assim caminha a humanidade. (C.N.)

RESPONSABILIDADE FISCAL E O MEU QUEIJO

Nunca vi tanta gente preocupada com o aspecto macilento e emagrecido do caixa do governo. Reduzido a pele e osso. Em junho de 2014 já estava em milhões de telas de computadores, mundo afora, o alerta que uma analista do Santander fez a seus clientes investidores, antevendo o que iria acontecer com a economia nacional. Não era bola de cristal, mas trabalho sério de quem acha que não se deve brincar com dinheiro alheio. Bola de cristal, bem fajuta e perdulária, era a usada por Dilma, pelos técnicos do governo e por Lula, que assim comentou a circular enviada pela funcionária do banco: “Não entende p…. nenhuma de Brasil” e sugeriu: “Pode mandar embora e dar o bônus dela pra mim, que eu sei como é que eu falo”.

A analista foi imediatamente demitida. O cartão vermelho do governo demoraria ainda dois anos para lhe ser exibido. Também no Brasil, e há bom tempo, técnicos sensatos, comentaristas esclarecidos, economistas experientes como os membros do grupo Pensar+ do qual participo, alertavam sobre as consequências da irresponsabilidade fiscal. A gastança criminosa promovida pelos sucessivos governos petistas nos conduzia ao inevitável estouro das contas públicas. A história registrará, entre os grandes infortúnios de nossa vida administrativa, a infeliz coincidência de termos vivido o ciclo mais favorável da economia mundial em muitas décadas sob gestão simultânea de uma organização criminosa e do mais destrambelhado dentre todos os nossos governos. Os tempos pródigos ampliaram largamente a voracidade e perpetuaram os danos causados nesse prolongado ataque por dois flancos. Agora são tempos de zelo com as contas públicas. Como é insensível o coração do caixa!

No entanto, esse necessário zelo não vem acompanhado do devido desprendimento. Parece tratar-se de algo que se exige “dos outros” para que as situações particulares permaneçam inalteradas. Todos querem responsabilidade fiscal para que a situação melhore e ninguém mexa no seu queijo (como no bom livro de Spencer Johnson). Imagino essa preocupação povoando, nestes dias, muitas reflexões sobre a situação do país. Deve pensar assim o ministro, viajando em jatinho da FAB. Também o deputado, cujo queijo se chama emenda parlamentar ou verba de gabinete. Não há de querer diferente o beneficiado pelo queijo da isenção fiscal ou do juro privilegiado. São perfumados os queijos especiais havidos por cargo ou função, por vaga nos superpovoados gabinetes políticos e por aposentadorias precoces. Há tantos queijos em busca de proteção! Eles se chamam, ainda, cartão corporativo e bolsa-empresário. E se chamam mordomias, têm carro oficial, motorista, garçom, copeiro e segurança.  Imagino a multidão de seus usufrutuários a sonhar com um Brasil onde a austeridade geral permita que nada mude.

O exercício dos poderes de Estado não pode ocorrer na ausência do mais elementar senso de justiça. O Brasil precisa que seus cidadãos submetam às suas próprias consciências uma PEC das boas condutas e dos bons exemplos. Quando o avião sacode, balança inteiro, da primeira classe ao porão de carga.

A OPINIÃO PÚBLICA E A OPINIÃO PUBLICADA

Num curto espaço de tempo, três eventos distintos entre si chamaram a atenção do mundo pelos mesmos motivos (a par dos seus impactos substantivos): de um lado, a incapacidade da mídia tradicional –‘grande imprensa’ – de fazer prevalecer suas opiniões; de outro, os impressionantes equívocos preditivos dos institutos de pesquisas quanto aos resultados da manifestação da vontade popular em cada caso. Resumindo: o que têm em comum a vitória de Donald Trump no recente pleito presidencial dos Estados Unidos; a decisão da maioria dos cidadãos do Reino Unido de deixar a União Europeia (o Brexit); e a rejeição colombiana ao acordo de paz do governo do presidente Juan Manuel Santos com as Farc?

 

As causas do mal-estar por trás desses resultados são razoavelmente conhecidas, ainda que insuficientemente analisadas e compreendidas, e traduzem  um abismo de percepções e preferências entre ‘elites e ‘massas’: vencedores X perdedores com a globalização e a tecnologia que exportam empregos e poupam mão-de-obra menos qualificada; temor da concorrência dos imigrantes transbordando para a intolerância aos ‘diferentes’; comportamentos tribais e balcanizados, não raro de espantosa ferocidade, sob o estímulo das redes sociais. A intensidade inaudita de todas essas atitudes confunde os bem-pensantes e semeia incertezas por toda parte.

 

No caso da campanha eleitoral norte-americana, Trump foi retratado pela grande imprensa, com poucas exceções, como o fanfarrão xenófobo, o bilionário inescrupuloso, o assediador de mulheres, o inimigo da diversidade de raça e de gênero. Durante a campanha, o republicano fez declarações totalmente fora do figurino do marketing político, mas que falavam muito ao eleitorado que ele pretendia – e conseguiu – conquistar. À sombra do perfil desabonador traçado pela cúpula do comentariado nos jornais e nas redes de telenotícias, o voto em Trump assumia os contornos de uma abominação indefensável. Agora sabemos que imensa parcela dos eleitores desprezou esses rótulos. O que valeu na sua decisão foi a confiança de que Trump, com seu perfil de magnata imobiliário e show-man de sucesso, seu discurso radicalmente populista e extremamente agressivo, poderia (poderá?) garantir mais empregos e melhores condições de vida aos deserdados do sonho americano.

 

No  Brexit, a votação se afunilou na disjuntiva: a permanência dos britânicos na União Europeia era melhor para eles ou para ela? A  resposta das urnas, contra forte pressão da mídia e dos chamados formadores de opinião, foi que a maioria na ilha não desejava pagar a conta dos desequilíbrios financeiros dos países do bloco, nem se comprometer com os custos de assentamento de uma torrente humana de refugiados do Oriente Médio ou imigrantes em geral, optando, assim, pela saída da EU.

 

No caso da Colômbia, um arco de apoio que abarcava desde a hierarquia da Igreja Católica até o secretário-geral da ONU, passando pela ditadura cubana do clã Castro, aplaudira irrestritamente como grande avanço civilizatório o acordo de paz com as Farc. Pois bem, no recôndito da cabine eleitoral, mais da metade dos cidadãos disse não ao que lhe pareceu um excesso de concessões à malta guerrilheira que fez o país sangrar por muitas décadas.

 

Ora, longe de agirem por ‘alienação’, ‘falsa consciência’ ou pura imbecilidade, americanos, britânicos e colombianos privilegiaram opções, que muitos não tiveram coragem de manifestar aos entrevistadores dos institutos. Esses cidadãos estão se lixando para os códigos da correção política, se rebelando contra os frutos amargos da globalização, querem resultados imediatos, sem mais paciência com a capacidade da sabedoria política convencional para ajudá-los a melhorar de vida.

 

Isso posto, fica mais fácil compreender o que dificultou  às sondagens  captar a opinião do eleitor inconformado. Não por acaso, a única pesquisa que previu corretamente o triunfo de Trump, um estudo desenvolvido a partir de julho pela Universidade do Sul da Califórnia (USC) e divulgado pelo Los Angeles Times, não perguntava diretamente se o entrevistado ia votar em Hillary Clinton ou em Donald Trump; usava a metodologia de ‘painel’ (pouco mais de 3 mil eleitores foram selecionados e tiveram suas atitudes monitoradas durante cerca de três meses;  era realizado via internet (onde a raiva e o politicamente incorreto conferiam sob a proteção do anonimato),  e não por telefone fixo, essa peça de mobiliário cada vez mais antiquada e rara nos lares mundo afora.

 

Vale reconhecer, porém, que, se andou equivocada na divulgação acrítica de pesquisas que as urnas se encarregariam de desmoralizar, a grande imprensa ainda assim cumpriu seu papel ao defender posições condizentes com a dignidade humana. A mídia tradicional também não perdeu inteiramente sua capacidade de formar opinião. Os escores finais se revelaram muito ‘apertados’. Nos Estados Unidos, segundo dados divulgados pelos Associated Press no dia 13 de novembro último, Hillary perdia para trump no Colégio Eleitoral, mas o vencia  por 47,79% a 47,30% dos votos populares válidos. Na Colômbia, o “não” à paz com a Farc ganhou por uma diferença inferior a 60 mil votos. E no Reino Unido, o Brexit derrotou a permanência na EU por 51,9 % a 48,1%, dos votos válidos. Mais que uma metamorfose radical e definitiva das ideias e crenças, desenvolve-se uma fratura significativa entre os modos de sentir e pensar nas sociedades democráticas atuais. O grande erro dos meios de comunicação está na forma unilateral como generalizam suas visões preferidas sobre o ambiente político e os seus personagens.

 

A perplexidade e a frustração com esses prognósticos deveriam servir-lhes como lição de humildade e também como renovado  incentivo a que trabalhem para reduzir o hiato crescente e perigoso entre a opinião publicada e a opinião pública.

 

 

Artigo escrito em parceria com AMAURI TEIXEIRA, jornalista e consultor em gerenciamento de crises.
Paulo Kramer é cientista político e consultor em análise de risco.