CALERO, O MACUNAÍMA DA ESPLANADA, É UM PERIGO PARA A DIPLOMACIA

Barra de São Miguel, Alagoas – O dedo duro sempre foi um sujeito abominável. Torna-se ainda mais asqueroso quando se utiliza de meios mesquinhos e traiçoeiros para encurralar os incautos. É pior do que o delator que, espremido entre um interrogatório e outro, flagrado diante dos fatos, tenta escapar da condenação entregando os comparsas de crimes dos quais são acusados.

 

A palavra delação passou a ter um efeito moralizador nos dias atuais. Deixou de ser um incômodo para quem delata para se incorporar ao dicionário brasileiro como sendo uma alternativa eficaz para passar o país a limpo, acuar os criminosos de colarinhos brancos e denunciar o malfeito dos servidores, além, é claro, de apontar os políticos que historicamente saqueiam os cofres públicos.

 

Pois bem, o que o Brasil viu nos últimos dias foi um misto de deduragem e delação na figura do diplomata Marcelo Calero, um personagem de gestos estudados e delicados quando se apresenta em público. Um sujeito que se metamorfoseou no Macunaíma da Esplanada dos Ministérios, assim definido por Mário de Andrade: “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite”, como conta o escritor paulista no início do seu livro. O ex-ministro da Cultura passou para o Brasil, com a sua atitude decomposta, a imagem de uma pessoa desleal, infiel e inconfiável ao sair pelos gabinetes ministeriais e presidencial gravando seus interlocutores a pedido da polícia.

 

Calero, como X9, não sobreviveria em nenhuma das comunidades do Rio, sua cidade, onde o dedo duro não tem futuro. Agora, o abacaxi volta para o Itamaraty. O que o Brasil pode esperar de um diplomata que grava clandestinamente os seus interlocutores para incriminá-los ou tirar deles proveito dessa escuta? Calero, servidor de carreira, agiu indignamente ao gravar clandestinamente uma audiência oficial, como disse o próprio presidente. Queria, segundo ele próprio, ajudar o Brasil a conhecer melhor os seus políticos.

 

Lambuzou-se. Apequenou-se ao atrair o presidente para uma conversa onde ele gravava com o intuito de criar uma situação embaraçosa para o Chefe de Estado, com quem confidenciava no gabinete.

 

Na entrevista que deu para o Fantástico, tão malconduzida pela repórter Renata Lo Prete, o ex-ministro tentou encaminhar a conversa de forma a se mostrar honrado, escrupuloso, avesso a prevaricação. E intocável, um homem que não aceita pressão, mesmo que ela venha do presidente da república.

 

O herói de papel não convenceu. Quando admitiu em entrevistas que foi orientado por policiais a gravar o presidente e seus ministros, revelou-se um fraco, desprovido do sentimento de lealdade. Na comunidade carioca pagaria um preço alto por virar alcaguete da polícia, figura detestável e odiada no mundo do crime.

 

Calero é diplomata de carreira. No Rio de Janeiro trabalhou com o prefeito Eduardo Paes. Logo se transformou numa figurinha do sociate carioca. Jeitoso e ambicioso, tentou a carreira política como candidato a deputado federal pelo PSDB, mas não passou dos 2 mil votos. Em pouco tempo virou secretário municipal de Cultura e em menos tempo ainda ministro numa cota do PMDB carioca.

 

Empavonou-se com o cargo. Durante seis meses não foi capaz de apresentar um plano mínimo para a sua Pasta. Embrenhou-se numa briga sem fim com o pessoal do PC do B, que aparelhou o ministério, e não decolou. Desapontou o governo pela sua inaptidão ao cargo.  Numa das vezes em que conversou com o Geddel recebeu o ultimato. Por isso aproveitou-se do açodamento para sair atirando antes de deixar o ministério.

 

Na verdade, o que se discute aqui não são os interesses patrimoniais de Geddel em Salvador, que ele pagou com a demissão. Discute-se, isso sim, a conduta de um homem que tinha a confiança do governo e que será sempre visto como um sujeito desleal. Perde inclusive a credibilidade para discutir assuntos estratégicos de estado no cargo de representante do Brasil no exterior. Se o diplomata achava que iria consertar o país com as suas gravações jurunáticas errou redondamente. Pela reação de repúdio da sociedade ao seu desvio de conduta, não é difícil imaginar que o jovem Calero fragmentou o seu caráter. E para o resto da vida.

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