O QUE ESPERAR DA ELEIÇÃO

Este ano, o desalento doméstico diante da deterioração política é o fator mais preocupante das eleições que se aproximam. A crise, que era no início política, depois econômica, virou crise de confiança. Mais do que uma polarização dos discursos entre direita e esquerda, o debate nas ruas gira em torno de uma desconfiança quase generalizada da população com a política, os políticos e, mais grave, com as instituições.

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), resumiu numa frase – melancólica frase – o sentimento geral do país ao visitar dias atrás um presídio em Goiás: “O cidadão brasileiro está cansado da ineficiência de todos nós; cansado inclusive de nós do Judiciário”.

Por trás dessa constatação está uma advertência: a continuarmos na inércia, sejam quais forem seus resultados as eleições não irão pacificar o Brasil em 2018. Não é só pelo cansaço. É também pela descrença num modelo caduco de se fazer eleições. A população esperou sentada uma reforma política duradoura, ao invés de leis de ocasião para atender uma eleição específica. Exemplo disso é a campanha curta, em que sairão na frente os candidatos já conhecidos. A saudável renovação de quadros virou uma quimera.

Para o cidadão comum, passa-se a impressão de que a política nada mais é do que um formidável empreendimento negocial. Não quer dizer, porém, que os políticos são todos corruptos, farinha do mesmo saco. Generalizações levam a injustiças, e há políticos sérios (no parlamento e fora dele) a honrar seus mandatos e a confiança neles depositada.

Aliás, estou convencido que não está aí a verdadeira ameaça à democracia. Contra o corrupto temos alguns antídotos, como vimos recentemente, é só cumprir a lei. O que ameaça a democracia é a distância que separa uma elite privilegiada dos excluídos e despossuídos de quase tudo. Pois a democracia se fundamenta na igualdade.

Acrescento a esse raciocínio o fato de que o simples gesto de confirmar o voto na urna, nas circunstâncias da realidade em que vivemos, não é garantia de nada. Há quem use a democracia para enfraquecê-la. Pode parecer estranho, mas este é um risco real.

Isto quer dizer que a tarefa que temos pela frente, de resgatar o tempo perdido, despertar o sentimento cívico de participação, é gigantesca. Daí a importância da escolha e a dupla responsabilidade, do eleitor e do candidato.

Para que a política não seja desmoralizada, é necessário que o eleitor se identifique com seu eleito. Já com relação ao candidato, acredito que sua maior responsabilidade está no exemplo. É preciso honrar o seu mandato com dignidade, com respeito à ética e, sobretudo, com respeito aos bens públicos.

Não há outra fórmula para fazermos a travessia. A opção à política é a guerra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *