PEDRO ROGÉRIO MOREIRA Jânio + Collor + Itamar = Bolsonaro?

À maneira como Plutarco ensina entender a História, alguém poderia comparar os perfis dos ex-presidentes Jânio Quadros, Fernando Collor e Itamar Franco, com o do presidente Jair Bolsonaro. Sabendo de antemão que nem todos os santos da Igreja foram santos, a preliminar deste Vidas paralelas brasileiro seria a de que nem todos os varões de Plutarco foram “varões de Plutarco”. O historiador grego colocou numa balança os estadistas de seu povo e os de Roma, exaltando-os, mas pesando os prós e os contras de cada um. Encontrar as semelhanças, ou aproximações, entre eles, mesmo com a ligeireza deste espaço, seria de bom proveito na atualidade em que nos deparamos com atitudes que desafiam a nossa compreensão imediata.

Os nossos quatro varões do título deste artigo são idiossincráticos e todos eles escolhidos pelo povo; estas são as aproximações.

Jânio implicou com os biquínis das cariocas e achava mais apropriado ao brasileiro vestir-se à moda indiana ou caribenha. Imitando todos os varões estudados por Plutarco, que decretavam guerra a outras cidades por “me dá cá a minha palha”, Jânio tencionou ocupar militarmente a Guiana. Mas não se mostrava em público um espírito tendente à guerra, como os de Esparta e de Roma; antes, foi um ateniense que queria congregar outros povos distantes, como se mostrou ao aproximar o Brasil da África, deusa mater de milhões de cidadãos brasileiros. Já Fernando Collor, que gabava sua férrea alma guerreira, é louvado por haver sepultado num profundo poço a bomba atômica brasileira, que alguns dos seus generais queriam manter no templo de Zeus para amedrontar os vizinhos argentinos. Também ele desacreditou os artesãos que construíam carros; preferia os de outros povos, assim como preferia os ornamentos e unguentos estrangeiros. Alguns varões de Plutarco importaram muitos costumes de outros povos e os incorporaram à sua cultura.

Jânio e Collor amavam exibir-se à multidão, nos nossos fóruns e aerópagos: a rua asfaltada e a televisão. Itamar Franco preferia a solidão do gabinete; nem mesmo subiu ao Capitólio para honrar o funeral de um maratonista elevado à condição suprema, o divino Senna. Não era soberba, nem temor ao povo que lhe admirava como se admirava Rômulo ou Sólon; era introversão ao exibicionismo, sentimento que, bem pesado na figura de um estadista que nas ocasiões solenes é obrigado pelo cargo a se expor, pode ser chamado de esquisitice. Sólon também tinha essa mania de fugir ao sol do aplauso, mas quando se dispunha a falar diretamente à assembleia do povo, era um Jânio Quadros! Mas Itamar, ungido pela divindade protetora da Ousadia, mudou a moeda e agradou unanimemente o patriciado e o proletariado das cidades e dos campos.

Collor, patrício rico de raiz, fazia questão de banquetes faustosos como quase todos os varões de Plutarco, mas não se intimidou ao avançar no tesouro dos particulares ao baixar uma lei retirando a moeda de circulação; com isso, igualou o patriciado ao povo, por um breve período, tal e qual fez o grego Licurgo em Atenas ao decretar o fim da cunhagem da moeda de ouro e de prata; introduziu a de ferro temperada ao vinagre. O tempo mostrou a inocuidade da lei: a cupidez vem dos tempos imemoriais, e ninguém, pobre ou rico, aprecia beber o vinagre puro, sem um acompanhamento condizente.

Itamar amava a simplicidade, assim como aparenta amar Bolsonaro e amavam mesmo alguns dos varões retratados em Vidas paralelas. Bolsonaro manda o carro oficial parar num food truck para comer um sanduba, assim como um comandante grego ou romano, em meio ao sítio de uma cidadela, encosta-se à pedra para comer a porção de lentilhas ao lado de seus liderados. Itamar não era dado às modernidades da alimentação; preferia as já testadas como boas. Após a sua feliz magistratura, que já entrou nos Anais da História, preferiu o ostracismo em Lisboa, e mandou seu cozinheiro que há anos o seguia edificar um galinheiro no quintal da afortunada mansão em que passava dias ociosos, comendo frango ao molho pardo aos domingos e alvejando ciumentamente com ditirambos telefônicos o cônsul que havia muito bem escolhido como sucessor, o filósofo FHC, de memória cultuada com inteira justiça.

Bolsonaro, no segundo mês de sua magistratura, já defenestrou um ministro, e alguns cidadãos dados a consultar o oráculo de Delfos garantem que há mais gente na fila para merecer o mesmo destino doloroso. Collor, também nos primeiros meses de seu consulado, defenestrou de suas hostes o líder na Câmara, o deputado Renan Calheiros, que foi o Bebianno de sua campanha, o esteio da vitória magnífica. E dispensou o trabalho de outros auxiliares que perto dele faziam oferendas às divindades do poder. Até com seu irmão brigou, assim como Rômulo brigou com Remo e degenerou em tragédia política.

O varão Numa Pompílio, como Bolsonaro, não integrava a aristocracia política e econômica da próspera Roma e amava a simplicidade da vida doméstica, assim como o Capitão se mostra ao se deixar fotografar de sandálias franciscanas e camiseta do Palmeiras sob a toga moderna, o paletó. Alguns não acham simplicidade, mas ausência de liturgia, mais modernamente chamada breguice, o que desagrada as divindades. Cuidado, elas castigam, especialmente aos sacerdotes aos quais cumpria zelar pelas cerimônias religiosas e hoje zelam pelas cerimônias políticas.

A fama de integridade de Numa o fez rei, embora não fosse romano, mas sabino; os ricos e o povo formaram uma coalizão para elegê-lo, tal e qual ocorreu conosco em 2018, com os banqueiros em peso e enorme parte do proletariado votando no Capitão. A principal obra de Numa foi consolidar e aumentar a grandeza de Roma, desestimulando as disputas políticas no Senado que derivavam sempre em guerras civis. É o anseio geral de hoje com Bolsonaro.

Voltando a Sólon, Plutarco lembra que uma das mais curiosas leis do ateniense foi proibir que se falasse mal dos mortos. Vamos respeitar essa lei sábia e não apontar aqui algum erro que os dois falecidos varões antecessores de Bolsonaro, Jânio e Itamar, tenham cometido. Falemos apenas de suas idiossincrasias, para que elas não atrapalhem a ação de bem nos governar. Nesta matéria, a vida política do antigo cônsul Fernando Collor, que hoje oferece sua experiência no Senado, pode dar oportunos ensinamentos ao atual magistrado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *