MIGUEL GUSTAVO DE PAIVA TORRES Cuba e Brasil: objetos voadores não identificados

Morde e sopra. Na tradição diplomática a reciprocidade é uma das regras de ouro. Expulsou de lá, expulsamos daqui, e por aí vai. É a paridade de armas, quando possível, no duelo diplomático. Não há amizade e consideração. Há interesses, e a profissionalíssima diplomacia cubana aplica essa vacina contra a retórica com máxima eficiência terapêutica.

Ingenuamente cheguei a acreditar que, com as desfeitas feitas ao Brasil nos episódios da Petrobrás e das negociações dos créditos alimentícios, o Itamaraty iria endurecer, como sempre fez, em casos semelhantes, inclusive com as grandes potências mundiais.

Nossa embaixada em Havana foi surpreendida quando soube, pela imprensa brasileira, que havia uma missão da Abin em Havana negociando eventual assinatura de acordo de cooperação com a Direção Geral de Informação de Cuba, para troca de informações e atuação conjunta.

A notícia estava causando grande rebuliço no Planalto e escândalo no Congresso Nacional, e nós, na embaixada em Havana, não tínhamos ideia do que estava ocorrendo nos bastidores das articulações políticas entre Brasília e Havana. Uma das principais atividades da Direção Geral de Informação de Cuba era a de prestar apoio a movimentos sociais e revolucionários e a partidos políticos aliados.

Essa visita de trabalho da Abin a Havana ocorreu no início de 2005, quando a Direção Geral de Informação de Cuba estava assumindo postos chaves na inteligência do governo bolivariano da Venezuela, em Caracas.

Na mesma época, como encarregado de negócios, recebi telefonema do Itamaraty transmitindo reclamações do Ministério da Aeronáutica sobre tráfego aéreo não autorizado de aviões cubanos no espaço aéreo brasileiro. Não tínhamos ideia do que estava no ar. Interpelamos por nota diplomática o Ministério das Relações Exteriores de Cuba para dar uma satisfação à aeronáutica brasileira. Não houve resposta escrita mas, por telefone, disseram tratar-se de falhas burocráticas, e ficou por isso mesmo. Havia, no entanto, um zunzunzum em Brasília, de que esses aviões não identificados estariam transportando equipamentos e recursos para os governos aliados de Cuba, na vizinhança brasileira.

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