OSWALDO TEIXEIRA DE MACEDO Usina de crises

A ‘crise no Itamaraty’ – mais uma criada pela jornalista Míriam Leitão, no intuito de desqualificar o governo de Jair Bolsonaro – é porque ela acha que o Ministro Ernesto Araújo está quebrando “a hierarquia dentro da instituição que, a exemplo das Forças Armadas, precisa dela”.

Acontece que a hierarquia que Míriam Leitão vê quebrada no Itamaraty nada tem a ver com a hierarquia das Forças Armadas.

Ao contrário do que ocorre no estamento militar, em que a hierarquia se baseia em mérito e na obediência a regras de progressão funcional impessoais e institucionais, a jerarquia do Itamaraty é o resultado de uma obscura e acirrada disputa por promoções na qual sobrevivem os que melhor conseguem enfeudar-se às diversas irmandades que se impõem ao pé dos ouvidos dos chefes da Casa e, não necessariamente, os mais capazes e experimentados.

Apesar da miríade de regras que deveriam dar base a uma ascensão funcional regida por princípios minimamente íntegros e transparentes, o que determina as carreiras na Chancelaria brasileira é principalmente a associação com as diversas cabalas que detêm poder no próprio ministério ou, indiretamente, por meio de promíscuas relações com deputados e senadores da República.

Os embaciados conluios que determinam a progressão funcional no Itamaraty, engendrados a partir da gestão de Azeredo da Silveira, no governo Geisel – o baby boom dos silveira boys –, e multiplicados ao longo do processo de redemocratização, criaram uma hierarquia intrinsecamente viciosa, baseada em favoritismos, adulações, bairrismos e alianças familiares.

Se “os diplomatas, assim como os militares, funcionam sob instruções”, não é verdade que, no Itamaraty, estas provenham de “alguém mais qualificado… com mais legitimidade para transmiti-las”.

A “lógica mais profunda” em que se baseia a hierarquia itamaratiana – que se declara em estado de confusão – nada mais é do que o resultado de um anquilosado processo de promoções na sua maioria alavancadas pela camarilha do Sarney, pela grei tucana ou pela camorra petista.

Essa “lógica mais profunda” que Míriam Leitão teme ver subvertida no plano interno do Itamaraty estava acostumada a refletir-se no plano externo de sua atuação: são as tais “tradições diplomáticas” que levaram ao nanismo de uma política externa marcada pelo multilateralismo de matiz ideológico, pelo regionalismo de várzea, pelo terceiro-mundismo e pela associação a ditaduras de toda ordem.

Nada mais salutar para a política externa brasileira do que o rompimento do “fluxo de transferência de conhecimentos e experiência” proveniente da corriola servil, provinciana e quinta-coluna com a qual a Míriam Leitão conversa pensando que está falando diretamente com a “estrutura da instituição”.

Oswaldo Teixeira de Macedo é diplomata.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *