EURICO BORGA Velhos e crianças miseráveis abandonados e animais bem tratados

A televisão mostrou a sofisticação de cuidados para com cães e gatos, (Rede Band fev/19). Cerca de 60% das residências no país já tem mais animais de estimação do que crianças com menos de 14 anos de idade, (IBGE, 2015).

A família, alicerce da civilização moderna, está se tornando ultrapassada. Os filhos são poucos ou nenhum, pois são dispendiosos e atrapalham a liberdade da vida do casal, que preferem consumir e se divertir… A repercussão do novo comportamento somado à progressiva informatização da sociedade é causa de desequilíbrio da previdência social, pois a contribuição solidária, que permite a redistribuição dos impostos pagos por quem trabalha, para sustento dos aposentados, está diminuindo.

Convenhamos: obter afeto e companhia, que as pessoas sentem falta, (principalmente os solitários, idosos e portadores de deficiência), com um animal tratado com enfeites e brinquedos, comidas especiais, tratamento veterinário com a melhor tecnologia instrumental, remédios e vacinas, é um deboche, uma atitude irresponsável num país, num mundo onde milhões de velhos e crianças não tem o que comer, roupa para vestir, um teto para se abrigar, hospital para se tratar.

Percebo, com estranheza, esta errônea manifestação de excessivo “amor” por animais, associado às supérfluas despesas nos orçamentos familiares. Adotem uma criança ou um idoso, doem o valor dos gastos com animais para instituições de caridade, pois a citada reportagem aponta valores de bilhões de reais em tal comércio.

É uma questão de justiça: cuidar de um ser humano ou de um bicho? Não se trata de abandonar os animais, mas evitar o exagero ridículo, de uma opção moral errada.

Não há crença moral que resista a disseminação do egoísmo “intelectualizado”, que ao justificar sua opção “diferente” destrói tudo o que a civilização ocidental construiu, em séculos do processo civilizatório, visando o aperfeiçoamento da convivência humana – a solidariedade.

Eurico de Andrade Neves Borba, escritor, 78, aposentado, ex professor da PUC RIO, ex Presidente do IBGE, mora em Ana Rech, Caxias do Sul

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