Bacurau

Segurando a mão da minha mãe, estávamos quase chegando ao final da ladeira da catedral, em frente à casa do Senhor José Barbosa, pai de três lindas meninas que sempre estavam na sacada observando o movimento da larga porta de entrada do Comércio de Maceió, a Praça da Assembléia. Alguém que vinha em sentido contrário, e ia começar a subida em direção ao bairro do farol falou, alto emocionado: o Brasil ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Foi o Anselmo Duarte; o pagador de promessas. Minha mãe sorriu encantada e eu me arrepiei todo. Meu Deus!-pensei-; o Brasil é o melhor de todos no mundo inteiro. Palma de Ouro. 1962. Eu tinha nove anos de idade e já era um cinéfilo contumaz. Conhecido de todos os porteiros e comissários de menores de Maceió e interior. Penedo principalmente. UAU. Palma de Ouro na sétima arte. Batendo Hollywood, França e o mundo todo. Quem é que vai poder segurar um país desse e o meu futuro nas artes cinematográficas internacionais. Claro, já estou lá, no palco do Teatro do Centro de Convenções, em Cannes, segurando e mostrando ao mundo, a Palma de Ouro do Brasil. Não tenha dúvida. Chego lá. Já temos a Copa do Mundo da Suécia no bolso e vamos engolir Hollywood, mostrando como se faz cinema ao mundo. Foi nesse mesmo ano que assisti, ao vivo, e participei das cenas das filmagens finais de Os Três Cabras de Lampião, em Água Branca, sertão de Alagoas. Eu já sabia como se fazia cinema. Mesmo com os conselhos da minha nova amiga, Vanja Orico, em julho de 1962, para fugir da ideia de ser artista no Brasil, como o diabo correria da cruz, eu só conseguia ver a enorme Cruz do pagador de promessas se arrastando feito cobra no sertão, e o meu futuro fulgurante no teatro e no cinema. Eu também quero uma Palma de Ouro, -dizia ao menino que morava na minha cabeça. Para dar ao Brasil. Para entregar a todos os brasileiros. Para mostrar a Vanja Orico. O sinal abriu e eu segui com minha mãe em direção à Brasileira, elegante loja com todos os tipos de rolos de tecidos fabricados na Inglaterra e no mundo inteiro, e depois seguindo para a Tira Teima, em busca dos nossos queridos produtos nacionais de corte e costura.

Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.

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