Ladrões na embaixada

Na chefia do setor político e de imprensa da Embaixada em Santiago fui designado pelo Embaixador Jorge Ribeiro para acompanhar, em seu nome, a delegação de parlamentares da oposição brasileira, chefiada pelo Deputado Fernando Gasparian, que participaria de um Fórum pró-democracia, em um modesto hotel cêntrico da capital, a convite da aliança de partidos opositores ao regime do General Augusto Pinochet.

Jorge Ribeiro, o nosso embaixador tinha o perfil do que chamamos no Nordeste do Brasil de “cabra macho”. Tinha exercido a chefia do Cerimonial do General Ernesto Geisel, no Palácio do Planalto, e tinha fama de disciplinado e rigoroso. Em Água Branca, no sertão de Alagoas, quando o General Geisel foi ao lançamento das obras do canal do sertão, este mesmo que estão concluindo agora, depois de jorrarem centenas de milhões de cruzeiros, cruzados, cruzeiros novos e reais pela boca do ladrão de suas tubulações, foi confundido por sertanejos simples e observadores, como se fosse o Presidente da República. Jorge Ribeiro era quem dava as ordens ao General sobre onde se posicionar e mostrava o relógio para cumprimento do horário. Os meus conterrâneos tiveram a certeza, assim, de que aquele homenzarrão louro e com autoridade era o Presidente do Brasil, e não o pacato Geisel.

O embaixador, para desespero do governo pinochetista, ofereceu não só todo o possível apoio logístico à delegação chefiada por Gasparian, como também promoveu um jantar inesquecível reunindo nossa delegação com todos os partidos opositores e suas lideranças, no palacete que pertenceu à família Edwards e é patrimônio histórico chileno. A delegação brasileira tinha alhos e bugalhos. Políticos sérios e respeitáveis, como o próprio Gasparian, e os turistas sem vergonha que aproveitam essas missões para viajar e se divertir com o dinheiro público.

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As individuais

Terminado o jantar fui procurar, um a um, os nossos parlamentares para conversar sobre a agenda do outro dia. Choque: Um pequeno bando , liderado por um  deputado do MDB De São Paulo, que ganhou fama gritando impropérios contra o regime Pinochet, estava esvaziando  caixas de prata e roubando os caríssimos charutos cubanos, comprados do próprio bolso pelo Embaixador. Alguns também enfiavam pequenos artefatos de prata nos bolsos das calças e dos paletós. Não deram a mínima quando viram que eu vi. Mas saíram apressados da residência quando me viram ir conversar com o Embaixador e com sua esposa, a suave  e inteligente gaúcha Inês Lívia Pellegrini.

Decepção. Nosso Parlamento, nossa Embaixada, nossa bandeira.

Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.

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