A mulher de César

O importante não é o que a mulher de César é mas o que parece ser. Máxima da política imperial na Roma de Júlio César, é uma diretriz da política profissional em todos os lugares e em todos os tempos, marcados neste intervalo entre o império romano e os tempos bicudos de hoje.

A política profissional é uma arte que se baseia em princípios universais, como a pintura, a escultura ou a escritura. É uma representação da realidade  por um prisma que permite a combinação e a recombinação da luz em várias cores aparentes. Do vermelho ao verde e ao amarelo, passando pelo azul, tudo é possível na interpretação da arte política.

Essas ligeiras alterações na direção e na velocidade da luz permitem transformar heróis em vilões e vilões em heróis; realçar ou anular perspectivas, personagens e detalhes. O importante é que a obra acabada tenha sentido, no sentido de mensagem política.

Parece complicado, mas não é. Por exemplo: a Odebrecht, uma das maiores empreiteiras do mundo em todos os tempos, se dominasse a arte da política teria invertido a ótica do prisma que corrompeu a luz e a tornou reflexo da criminalidade nacional. Nada mais fez do que fornecer pincéis e tintas aos artistas da política e cobrar o preço que considerou justo pela venda dos seus serviços de “patronage”. Patrão de todos porque dona do dinheiro.

Na Índia, com quase dois bilhões de habitantes, dois empresários controlam todo o estoque de pincéis, paletas e tintas dos artistas da política nacional. No Brasil. México e Argentina, a confraria de patrões, no conjunto, não ultrapassa duas dúzias. Os agentes são muitos: milhares; mas os patrões são poucos.

O importante não é o que a mulher de César é mas o que parece ser. Entre os dias da Ágora ateniense, do Fórum romano e das redes sociais do século XXI nada mudou. Tudo permanece igual. Nada de novo sob o sol , já rezava o Velho Testamento. O importante é o convencimento da opinião pública pela opinião publicada. E sempre será assim: vilões podem ser transformados em heróis e heróis em vilões. O importante, mais ainda, é a combinação do meio com a mensagem. É tornar inteligível o que se quer colocar como verdade, mesmo que não seja verdade. Até porque o que é verdade para alguns para outros não é: alguns sofrem de miopia, outros são daltônicos e outros, simplesmente cegos. Lula não viu sangue na facada do Adélio em Bolsonaro. Bolsonaro não viu fantasmas e muito menos laranjas entre os seus discípulos. A Marielle é uma placa de rua. O Queiroz não passa de uma ilusão de ótica. Os bilhões em tintas, pincéis, quadros e moldura fornecidas pela Odebrecht aos artistas da política brasileira é uma invenção, sem provas e sem rastros. Culpado mesmo é o Moro, Quem manda ter um nome que se confunde com Mouro, esse arquétipo do demônio da cristandade. Com esse nome só pode ser culpado. É claro que é culpado. Por isso foi interceptado na hora certa: a hora da verdade.

Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.

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