O outro Brasil

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Às vezes faz bem sair por aí para dar uma olhada na paisagem  da geografia natural e humana das terras e lugares que nos rodeiam. Ligados em mídias visuais e impressas, sob o bombardeio constante  de fatos e versões negociados e vendidos como qualquer outra mercadoria por profissionais que alugam cabeças e canetas; e ativistas com interesses particulares ou representando grupos sociais específicos, a tendência geral é terminar acreditando na mula sem cabeça e no  Saci Pererê.

Arma-se uma grande confusão para que os olhares sejam desviados do essencial: assassinos são assassinos, ladrões são ladrões, bandidos são bandidos., enganadores são enganadores. Não importa a cor da camisa, a crença, a ideologia ou a fé, que professem ou façam de conta que professam. Quando você desliga tudo isso e vai ao encontro da realidade, a realidade é outra. Em viagem de lazer que fiz, na semana das festividades do São João, à cidade paraibana de Campina Grande, tive a sorte de ser convidado a assistir a um “Workshop” dos professores e alunos da escola de Música da Universidade Federal de Campina Grande. A UFCG. O tema versava sobre os principais ritmos musicais do Nordeste brasileiro: Baião, Forró, Xote e Xaxado.. Assisti ali, por mais de três horas, a uma interação de interesses, conhecimentos, paixão e alma entre alunos e professores. Uma fruição espontânea de amor e respeito ao aprendizado e à música. Mais ainda, às suas origens e cultura.

No dia de São João fui conhecer a terra de Pedro Américo de Figueiredo e de José Américo de Almeida: Areia. Situada na bela e verde região do Brejo paraibano. O orgulho daquela gente de Areia por sua bela e histórica cidade resplandecia nas portas, janelas e calçadas do preservado e bem cuidado casario da cidade. Não lembro de ter visto patrimônio histórico guardado com tanto amor nas minhas viagens pelo Brasil. Parecia que a cidade estava sendo inaugurada naquele dia. Até mesmo  a singela mas imponente pequena Cadeia Pública tinha sua beleza e humanidade dimensionadas.  Seguindo viagem fomos conhecer, nas proximidades de Areia, a cidade de Alagoa Grande, antigo distrito de Areia e hoje município independente. Outra surpresa no roteiro: a terra que fez questão de homenagear com um   memorial, que inclui túmulo e museu do filho ilustre, Jackson do Pandeiro, tem um teatro construído em 1905, Repito, 1905. Um teatro bibelô. Uma joia rara. Reluzente e imponente na sua destacada posição no contexto urbano de Alagoa Grande. A madeira dos camarotes e plateia parecia que acabara de ser engraxada.  Em um país que se especializou nas últimas décadas no vandalismo e destruição do patrimônio histórico, com os exemplos que encontramos nas grandes e médias cidades  brasileiras, como se vê em Maceió, Recife, São Paulo, no Rio de Janeiro  e em outras capitais- a  Estação Leopoldina no Rio de Janeiro é um clássico do vandalismo cultural nacional-. No interior daquela sala mágica, no agreste  paraibano,  uma juventude simples e alegre ensaiava apresentações teatrais. Felizes e dignos naquela tarde de São João.  Viajando mundo afora por décadas não lembro de emoção igual e de perguntas íntimas tão fortes: Por que se é possível aqui neste microcosmo não pode ser possível em todo o  país.  Uma pergunta que surgiu do inesperado. D o inusitado de  uma realidade que não está nas mídias e no mundo virtual,  mas plantada ali,  no barro sertanejo, por gerações do passado que deixaram um legado de respeito e de amor  ao palco da vida das gerações futuras. Aquela que estava ali, naquela tarde de São  João, transformando o pequeno Teatro Santa Ignez, de Alagoa Grande, em um templo de esperança nos seres humanos, na sua arte e na sua gente.

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