Trocas de mensagens revelam ligação de traficantes com policiais no Morro do Dendê

Grupo chefiado por Fernando Guarabu negociava informações, armas e equipamentos da polícia em troca de propina; diálogo mostra ameaça feita por policial que reclama atraso no pagamento.


Mensagens de texto revelam ligação entre traficantes e PMs corruptos

Trocas de mensagens obtidas com exclusividade pela Globo mostram os bastidores de negociações entre supostos agentes públicos e traficantes da Favela do Dendê, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio.

As mensagens de texto revelam que um homem que se identifica como Léo e se apresenta como policial exige o pagamento de R$ 300 mil por informações sobre uma operação do Bope, a tropa de elite da PM do Rio, na favela.

De acordo com a Polícia Civil, as conversas são entre um traficante conhecido como Tetê, que seria um homem de confiança do chefe do tráfico Fernandinho Guarabu, executado pela polícia nesta semana. Tetê é quem, segundo a polícia, negociava propinas, drogas e armas.

Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, era um dos traficantes mais antigos e mais procurados do Rio. Ele morreu esta semana durante uma operação policial. O corpo dele foi nesta sexta-feira (28).

Contra Guarabu havia 14 mandados de prisão que não eram cumpridos, segundo as investigações, graças ao envolvimento de policiais militares corruptos com a quadrilha do traficante.

Na troca de mensagens de texto que a Globo teve acesso, Tetê e um suposto PM, que se apresenta como Léo, pede R$ 300 mil para dar informações sobre operações policiais na favela do dendê e cobra o pagamento do valor integral.

“Já se passou muito tempo e o acordo ainda não foi cumprido. O chefe pediu para mandar os 200 mil restantes, que seja em 4 parcelas de 50 mil”, diz o suposto PM em uma das mensagens.

Em outro trecho, Léo reclama que se o Guarabu não comprar a informação, o resto do bando, que ele chama de funcionários, seriam os maiores prejudicados. Disse ainda que traficantes poderiam acabar presos ou mortos, em eventuais operações policiais. Ele faz uma ameaça contra Guarabu: a ideia é de que se não conseguir prender ou matá-lo, é levá-lo à falência.

No diálogo, o policial continua em tom ameaçador: “Você vai ver aquilo lá pegar fogo de verdade. Como te falei a paciência já esgotou. E lembra o que aconteceu com o traficante peixe da Vila Aliança, que teria rejeitado um acordo semelhante: 48 horas depois de rejeitar uma informação estava algemado, implorando para negociar”.

O traficante se mostra impotente diante da recusa de Fernandinho Guarabu em negociar com o policial e responde: “Mais fazer o que? Fernandinho quer isso pra vida dele”.

Em outra conversa, um suposto agente da área da segurança pública avisa a Tetê de uma operação do Bope

“Não tem como dar um jeito de intervir pra acalmar lá?”, pergunta o criminoso, diante do que o interlocutor responde: “Tá louco! Sem dinheiro????? Se eles pagarem à vista, tem como”.

Nesse diálogo entre o criminoso e a pessoa ainda não identificada, Tetê pede informações, que ele chama de visão, sobre operações policiais a mando, possivelmente, de outro traficante apelidado de “Lele”.

A pessoa responde que até o dia 17 não tem nada previsto e fala abertamente: “Da cúpula da segurança carioca não tem nada pra lá”, mas alerta que surgiram informações sobre Guarabu, que ele chama de fulano.

Entre a troca de mensagens há até o vazamento da escala de policiais civis que participariam de uma operação no Dendê.

As investigações mostram que as relações entre Fernando Guarapu e policiais corruptos envolvia também armas e até equipamentos da polícia.

Vídeos que o RJ2 exibiu na sexta-feira, gravados em abril de 2007, mostram o sargento PM Renato Alves da Conceição entregando um fuzil AK-47 para um dos criminosos da quadrilha. Em seguida, Fernando Guarabu aparece segurando a arma e colocando o carregador. O policial militar foi morto oito meses depois, em Jacarepaguá, no carro de luxo que ele dirigia.

Em outro vídeo, Carlos Alberto Cambraia Jr., apelidado de Metal, aparece em pé. A voz ao fundo, segundo a polícia, é de Fernando Guarabu, que diz quase nunca se arriscar a sair da favela.

“Tenho medo de sair do morro, na moral. Outro dia fui, quatro carros, lá no Pinheiro, 20 fuzil, fala aí, assim eu vou. Agora, vou ficar me arriscando, sabendo que chega lá, nego vê ele mesmo pode ligar, fulano tá aqui, igual aconteceu com Adriano aí, os caras lá”.

Metal morreu durante uma operação do Bope, em janeiro de 2017.


A polícia investiga agora imagens de um baile realizado na noite desta sexta-feira em homenagem a Fernando Guarabu e aos traficantes mortos na mesma operação.

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