O Rei das Florestas

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Macron é, sem dúvida, o rei das florestas. O imenso império colonial da República Francesa sempre foi o maior fornecedor global de madeiras nobres para  a indústria da movelaria e da construção civil, numa devastação sem precedentes das florestas tropicais na idade moderna.

No velho esquema de Lampedusa, tudo mudou para nada mudar. Terminado o status colonial no final da Segunda Guerra, a França criou a União Francesa e, logo depois, a Comunidade Francesa, enredando todas suas ex-colônias, protetorados, tutelados e territórios de ultra mar numa rede de dependência financeira, legal e administrativa tecida pelos melhores artesãos da burocracia e da diplomacia francesa:  Guiana Francesa,  Nova Caledônia, Ilha da Reunião, Madagascar e ilhas adjacentes, Djibouti, Costa do Marfim, Togo,  Guiné Conacri, Benim,  África Central, Congo Brazzaville, Camarões, Martinica, Guadalupe, são apenas algumas referências de territórios com florestas tropicais e grande biodiversidade devastados pelos madeireiros franceses; os famosos “boisiers”, precursores dos nossos “boisiers” brasileiros que hoje tentam devastar a Amazônia brasileira.

E a Europa e os Estados Unidos, dissimuladamente, continuam comprando toda essa madeira, produto do crime ambiental, porque suas indústria de movelaria e construção civil não podem parar, e dela precisam.

Então, é um jogo de dupla face. Onde políticos europeus e norte-americanos dizem uma coisa e protegem outra, dissimuladamente.

O mesmo se passa com a indústria do óleo e gás e com a indústria do plástico. Hipocrisia generalizada daqueles que necessitam do apoio financeiro desses predadores do meio ambiente para suas eleições “ democráticas.”

Na Europa, é  verdade,  o jogo tem que ser  feito em padrões legais de sustentabilidade. Mas quando partem para os seus “territórios”, com os seus cidadãos franceses de segunda classe, tudo é permitido.

Foi assim que detonaram, sem piedade, muitas bombas nucleares no Atol de Bikini, devastando com radioatividade eterna uma das mais lindas joias ambientais do planeta terra: a Polinésia Francesa.

Inacreditável, o que fizeram na Polinésia Francesa. Quando lá estive na década de 90, maravilhado com aquela beleza que só Deus poderia criar e doar ao Homem, fui alertado sobre o veneno da radioatividade que os civilizados políticos franceses haviam espalhado por lá. E os locais?, perguntei a um local. Os locais não importam, respondeu.

Assim é, e assim não poderá mais ser. Alemanha e Inglaterra pagaram fortunas a países miseráveis da África e Ásia para receberem lixo radioativo e lixo hospitalar. Há pouco tempo  pipocaram escândalos na Guiana-ex-Guiana Inglesa-, e aqui em Pernambuco, onde resido. Contêineres e contêineres de lixo hospitalar. Pneus, nem se fala, virou uma febre mandar pneus usados do primeiro mundo para os pobres do terceiro mundo.

E por aí vai. Quando, perguntamos, vão tomar vergonha na cara e vão  admitir que o planeta é, na verdade, uma casa única, para todos, e não apenas para europeus e norte-americanos, esses descendentes dos primitivos neandertais?

Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.

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