O Brasil na ONU

Ney Lopes

Setenta e dois anos, após o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha presidir a primeira sessão especial da Assembleia das Nações Unidas (1947), o presidente Jair Bolsonaro manteve, ontem, 24, a tradição do nosso país fazer o discurso de abertura das assembleias anuais.

Falou no amplo salão côncavo da ONU, emoldurado pela insígnia oficial, na qual realçavam “ramos de oliveira” como símbolos da Paz e o mapa, que representa todos os povos. Entreolhado pelo mundo, Bolsonaro assomou o púlpito da instituição, cujo prédio situado em Nova York, às margens do rio Hudson, nasceu do talento de Oscar Niemeyer, em parceria com o arquiteto francês Le Corbusier, transformado em referencia da arquitetura modernista (39 andares e 167.6 metros de altura).

Na entrada sobressai a tela do artista brasileiro Claudio Portinari (“Guerra e Paz”), cujos pontos de cor e tons sóbrios retratam no painel da guerra,  tristeza e dor; no painel da Paz, solidariedade, sorriso e alegria.

O discurso presidencial pode ser qualificado como “incisivo”, desde o seu início, quando o chefe de governo começou dizendo que iria “restabelecer a verdade”. Notou-se que a diretriz seria polarizar com o “sou contrário”, sem apelo a linguagem conciliatória.

Estava claríssima a intenção de nutrir o seu “eleitorado” e dá o tom de resgate da imagem das Forças Armadas, sobretudo quando deixou claro, que em décadas passadas, elas salvaram o país do “socialismo”. Referiu-se obviamente à Revolução de 1964.

Dois “eixos” principais orientaram o pronunciamento: noção da consciência de soberania nacional no território amazônico e a disposição brasileira de preservar o conceito de desenvolvimento sustentável na Amazônia, que justifica o aproveitamento econômico das riquezas adormecidas.

De um lado, condenou as ideologias, mas de outro colocou-se como ideólogo, na linha de Trump e Boris Johnson, com os quais demonstrou alinhamento e semelhanças.

Em relação ao incidente com o presidente Macron mencionou indiretamente o fato do governante francês ter proposto  sanções contra o Brasil, demonstrando espírito colonialista e sem ouvir o seu governo.

O tema mais aguardado – a questão da Amazônia -, somente foi abordado, após alguns minutos de condenações à mídia, aos governos de Cuba e da Venezuela, ao indigenismo ultrapassado e ao ambientalismo radical.

Para defender-se das acusações, de que o seu governo contribuía para a devastação ambiental, Bolsonaro citou a presença no plenário da indígena Ysani Kalapalo, integrante de sua comitiva, e anunciou uma carta de agricultores, habitantes de 30 milhões de hectares na Amazônia, credenciando-a a falar em nome das comunidades nativas.

O objetivo foi dividir o movimento indígena e desmistificar o cacique Raoni, que na mídia internacional é tido como o interlocutor principal dos povos amazônicos.

O discurso presidencial afagou o tema  “refugiados”, que integra a pauta internacional no momento, ao mencionar a “Operação acolhida”, de recebimento de refugiados venezuelanos, encabeçada pelas forças armadas.

As palavras do Chefe do Governo brasileiro certamente suscitarão várias interpretações.

Um fato é incontestável: não se justificaria perder o “momento global” da Assembleia Geral para ser dada a versão oficial sobre o que acontece na Amazônia.

Trata-se até de legítima defesa, embora sejam legítimas eventuais contestações. Afinal, a ONU em reuniões passadas abrigou choques e debates muito mais agressivos.

Bastaria recordar o “Incidente do Sapato”, ocorrido há 59 anos, protagonizado pelo premiê soviético, Nikita Khrushchev, que em arroubo de cólera retirou o seu sapato e bateu sobre a mesa, além de dirigir-se ao representante das Filipinas, chamando-o de “idiota, palhaço, lacaio”, subserviente ao imperialismo americano.

A referencia no discurso a cobiça internacional pela nossa Amazônia, não pode ser considerada “fantasia”, ou “ficção”. Afinal, esse território abriga a mais vasta província mineral do planeta, riquíssima em sua biodiversidade e com a maior reserva de água potável no mundo.

Já existiram no passado  ameaças concretas.  Senão vejamos.

François Mitterrand declarou que o Brasil “precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. O ex-vice-presidente americano Al Gore disse: ‘Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles; é de todos nós’. O ex-mandatário soviético Mikhail Gorbatchov proclamou: ‘O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes’.

O ex-primeiro-ministro inglês John Major, que chegou a mencionar invasões militares na região amazônica.

De agora por diante, resta aguardar os desdobramentos da posição brasileira na geopolítica mundial. O “recado” foi dado, por quem tinha legitimidade de faze-lo: o atual Presidente da República, eleito democraticamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *