Desdém com a miséria alheia

Miguel Lucena

Endinheirados de Brasília, ociosos, resolveram desdenhar da pobreza, vestindo-se de favelados e portando réplicas de armas usadas pelos traficantes nos morros cariocas, durante festa que fizeram para se divertir semana passada, no Lago Sul.

De periguete a chefe da boca, a mansão do evento ficou lotada de seres nunca dantes vistos no bairro mais rico da Capital da República. Uns bombados, outros buchudos, mulheres com os beiços inchados de fios de ouro e botox, bundas compradas a peso de ouro, peitos postiços de quilo e meio, vestidos com a moda da periferia lançada pela TV Globo nas novelas mas que já existia, desde anos 90, na Feira da Sulanca, em Caruaru.

Embora alguns vivam só de aparências, comprando carros de luxo em 96 prestações mensais, com os carnês fazendo os carros andarem tortos para um lado, a maioria leva vida confortável. Como crianças, ficam procurando ocupar o tempo com brincadeiras novas, vestindo-se de bruxas, de travesti, de Jeca Tatu, de super-heróis e agora de favelados.i

Alguns encomendaram dentes de ouro, ostentaram braceletes e correntões e esvaziaram as lojas de armas air soft, para disparar tiros de tinta durante a festa.

Dizem as más línguas que uma das mesas da festa estava repleta de sarapatel e buchada de bode, costurada com fios de ouro. Quando já estava amanhecendo o dia, os ricaços foram para o quintal e tomaram banho de mangueira. Alguns soltaram pipocos, porém com som mais fraco e diferente daqueles que se ouvem cotidianamente no morro, onde se amontoa o Brasil real.

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