Será que agora vai?

Elmar Nascimento

Diz-se que o brasileiro é um eterno otimista. Tomara que sim, pois trata-se de característica notável, que nos possibilita levantar mais rapidamente das quedas. Nos últimos anos, entretanto, principalmente por conta dos percalços na economia, essa marca de nosso povo tem sido posta à prova. Desde 2014 passamos por uma profunda recessão, seguida de uma estagnação persistente e desalentadora.

Mais recentemente, contudo, alguns números têm surpreendido positivamente. Diria que podemos estar diante de uma recuperação econômica que faça jus ao termo. Obviamente, sempre se corre o risco de contaminar as análises pela torcida ou desejo, mas creio que alguns dados bastante objetivos permitem uma renovação de ânimo.

As vendas do comércio varejista em julho, divulgadas pelo IBGE em setembro, vieram bem acima do que esperavam os analistas. Foi o melhor resultado para o mês em 6 anos. Surpreenderam também os dados do setor de serviços, com alta de 0,80% entre junho e julho, muito além da expectativa média de 0,15% apurada por um conhecido serviço de notícias econômico-financeiras. Registre-se que aqui estamos falando de um setor que responde por ¾ do PIB nacional.

Mas um outro dado, também divulgado em setembro, merece ser tratado mais detidamente. Refiro-me aos números do emprego medidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged. Trata-se do emprego formal, com carteira assinada, que veio, em agosto, 50% acima das estimativas feitas pelos especialistas do mercado de trabalho. Foram criados mais de 121 mil empregos com carteira assinada, contra uma expectativa média em torno de 80 mil vagas, no melhor agosto desde 2013. Já são mais de 1 milhão de vagas criadas no biênio 2018-19, algo que não chega a ser motivo de euforia, principalmente quando se tem em conta que no período 2014-16 foram fechados quase 3 milhões de postos de trabalho, mas já traz algum alento e esperança para os milhões de brasileiros que ainda enfrentam o flagelo do desemprego.

Outro aspecto animador vem da condução da política monetária pelo Banco Central. Recentemente, nossa taxa básica, a Selic, foi reduzida a 5,5% ao ano, renovando um recorde para a taxa nominal que agora vem acompanhado de outro para a taxa real, já descontada a expectativa de inflação, situando-a abaixo de 1,5% ao ano. E tudo indica que terminaremos 2019 com taxa básica de 5% ou menos, num cenário que claramente servirá de estímulo à atividade econômica. É verdade que ainda não observamos essa queda do juro básico chegar ao tomador final, mas medidas têm sido tomadas, notadamente no tocante ao aumento da competição no sistema financeiro, sinalizando para dias melhores no mercado de crédito.

Sabe-se, entretanto, que há consideráveis ameaças no horizonte, vindas, principalmente, de fora. O risco de uma recessão global não é desprezível e a guerra comercial ora travada entre grandes potências pode ter reflexos importantes por aqui. Contra isso, nada melhor do que dar continuidade às reformas estruturais, com especial destaque para a previdenciária, a tributária e a administrativa. Nesse ponto, o Congresso tem agido exemplarmente, liderando um processo reformista que, infelizmente, não encontra o correspondente entusiasmo e o devido envolvimento do Executivo.

Seria importante também adotar medidas no sentido de impulsionar os investimentos em infraestrutura. Os valores destinados atualmente ao setor sequer são capazes de repor a depreciação do que já existe. Parte do problema pode ser explicada pelo verdadeiro caos instalado em nossas contas públicas, mas alguns aperfeiçoamentos legais podem fazer com que o setor privado preencha essa lacuna de forma ainda mais efetiva do que tem ocorrido. Há necessidade de um novo marco legal para concessões e outras formas de parceria, que também já está em discussão na Câmara, de maneira a dar mais segurança jurídica e viabilidade financeira a um tipo de negócio que envolve grandes montantes e prazos longos. O impulso à infraestrutura certamente aceleraria a recuperação, inclusive a do mercado de trabalho, uma vez que se trata de setor intensivo em mão de obra.

Enfim, a recuperação econômica ainda é lenta, com isso se refletindo especialmente no mercado de trabalho. Mas alguns dados recentes permitem uma análise mais otimista, por indicarem certa aceleração na retomada. Muito ainda precisa ser feito para concretizar esse cenário, mas trabalhar com esperança é sempre um bom começo.

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