DILMA EM APUROS

MÁRCIO COIMBRA

Dilma está em apuros. Não me refiro ao seu governo, que anda mal, mas especificamente a Presidente, que tem dado sinais que não deve terminar o mandato. Senti, nas últimas semanas, movimentos do establishment político em direção a sua própria salvação, o que significa a saída de cena de Dilma. Enfim, está soando melhor para todos os campos que ela se vá e abra caminho para o que virá.

No Planalto ouve-se de todos os lados, especialmente daqueles mais ligados a Lula, de que chegou o momento de Dilma se afastar sob pena de inviabilizar a permanência dos petistas no poder. Na verdade, a estratégia seria entregar o ajuste nas mãos alheias, passar para a oposição e asfaltar a volta do morubixaba petista em 2018. No Congresso, petistas graúdos já comentam que teria sido melhor perder a eleição e entregar a casa para ser arrumada pelos tucanos. Talvez ainda esteja em tempo.

Se os petistas flertam com a possibilidade de renúncia, os caciques peemedebistas não enxergam a ideia com reservas, pelo contrário, é algo que anima as hostes do partido. Seria a chance de assumir o poder de direito, ao invés de ficarem confinados ao jogo político com Dilma, que despreza o trato parlamentar, mas não abre mão de sua condução. Com Temer na cadeira de Presidente, todo o processo se encaixaria com mais facilidade, pois o ex-Presidente da Câmara possui o talento de saber negociar com o Congresso, material em falta hoje em dia no Planalto. Diante de um governo de união nacional, as reformas sairiam com muito mais facilidade, além de serem propostas com convicção.

Curiosamente aqueles que menos desejam a renúncia são os tucanos, que preferem ver a chapa Dilma/Temer cassada pelo tribunal eleitoral, o que jogaria o poder diretamente no colo de Aécio. A chegada do Vice ao poder, nesta configuração, não seria interessante, pois enfraqueceria o nome do Senador mineiro como canalizador das insatisfações populares. Aécio correria o risco de derreter, além de ter que enfrentar provavelmente Lula e talvez o próprio Temer.

Ao mesmo tempo que parte do tucanato não enxerga a renúncia com bons olhos sob o ponto de vista político, outros grupos, como aquele liderado pelos deputados, preferem a saída de Dilma de qualquer forma. Para eles, a chegada de Temer ao poder traria mais estabilidade ao jogo político e a composição com os peemedebistas traria estes parlamentares de volta ao xadrez político da articulação.

Refém dos seus próprios erros, Dilma caminha em direção de seu ocaso político. A redução de ministérios, por mais necessária que possamos imaginar, desarticulará ainda mais sua frágil base no parlamento. A Presidente não conta nem com o apoio total de seu próprio partido, que pede a cabeça de seus ministros e ataca os ajustes promovidos pela equipe econômica. Sem apoio em casa, nos partidos parceiros e tampouco na oposição, sua saída é um processo que já começou a ser costurado e que em breve pode atingir seu ápice.

O Brasil vive uma crise de falta de liderança. Sua face política, que alimenta as incertezas econômicas, agrava-se a cada dia. Dilma mostra-se incapaz de implementar os ajustes necessários, não consegue articular sua base de apoio e sofre a intensidade do fogo amigo que passou enxergar seu afastamento como uma forma de blindar seu legado e seu retorno. O impeachment ou a renúncia podem vir daqui até o final do ano, sob a pressão ou orientação dos seus próprios companheiros que hoje buscam uma forma real de salvar a própria pele. Diante da incapacidade e incompetência da Presidente, o establishment já se movimenta para blindar o sistema. Hoje, em Brasília, já vive-se o pós-Dilma.

*Cientista Político. Coordenador do MBA em Relações Institucionais do Ibmec.

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