DECODIFICANDO A VAIA A JUSTIN GATLIN

Claro, eu também vibrei com o tricampeonato de Usain Bolt nos 100 m rasos. Mas me senti mais tocada ainda por seus comentários à vaia da torcida a um de seus concorrentes, o norte-americano Justin Gatlin. Bolt sabia que a imensa maioria da torcida no Engenhão estava a seu lado: ele esbanja carisma.

Se, nas raias, reafirmou ser a lenda que todos já admitiam ser, fora delas exibiu traços de humanidade que raras vezes se observam nos ídolos. Aplaudiu entusiasticamente o sul-africano que quebrou o recorde de Michael Johnson nos 400 m rasos, em vigor desde 1999, e tratou de ir cumprimentá-lo no momento em que saboreava a própria glória. Estimulou o jovem corredor canadense que com ele disputou a final da mais festejada das competições e que levou um bronze. Por último, criticou a própria torcida, que o venerava, por vaiar seu rival Justin Gatlin. Usain Bolt revelou-se generoso, humano.

Gatlin foi pego num exame antidoping, faz alguns anos. Pagou sua pena sendo banido das competições por certo período. Está limpo, como atestam os órgãos de controle, e aos 34 anos ainda corre como um foguete. Só foi superado pelo próprio Bolt. Mas parece que sua condenação é perpétua; rotularam-no de “bad boy” das pistas. Foi recebido no estádio como uma verdadeira Geni.

Bolt tratou de denunciar o erro dos torcedores. Achou aquele código “estranho”, incompreensível. Dedicou respeito ao adversário que superou a própria falha e, em que pese a idade, busca se superar, indo atrás de melhores resultados. Já anunciou que irá a Tóquio, quando estará, então, com 38 anos!

O que Bolt talvez não saiba é que o Brasil vive um momento especial em que o ódio toma conta de tudo. Não há diálogo. Não há consideração por quem pensa diferente. Se fosse proposto um plebiscito, entre aqueles que estavam na galera do Engenhão, sobre qual o destino a ser dado a Gatlin, não faltaria quem propusesse a própria pena de morte para o “desgraçado”. É isso que temos visto neste país afora nos últimos tempos. O senador Cristovam Buarque foi achincalhado por ser considerado golpista; a atriz Letícia Sabatella, agredida por defender o “Fora, Temer”. Estamos perdendo a capacidade de disputar com lealdade, de ver no que não compartilha nossos ideários, nossa visão de mundo, antes de tudo, um ser humano como nós mesmos.

Bem assinalou Leonardo Boff, em recente artigo, que, nos Jogos Olímpicos, predomina o espírito esportivo acima de diferenças nacionais, ideológicas e religiosas; que todos estavam representados, até um grupo, muito aplaudido, de refugiados. E arrematou: talvez este evento seja um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como única família, antecipando uma humanização sempre buscada, mas nunca sustentada definitivamente porque não avançamos ainda em consciência de que somos uma espécie, a humana, e que temos um único destino comum junto com a Casa Comum, a Terra.

O gesto de Bolt é uma semente dessa nova consciência.

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