Decisão de Janot faz Léo Pinheiro ficar em silêncio e causa retrocesso na Lava Jato

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Charge do Oliveira, reprodução do Diário Gaúcho

Carlos Newton

Em um momento verdadeiramente crucial, em que estavam sendo reveladas as mais importantes informações sobre os esquemas de corrupção montados na administração pública, a apressada, estranha e inexplicável decisão do procurador-geral Rodrigo Janot paralisou as investigações da Lava Jato e causou uma grave crise institucional.

DECISÃO DESASTRADA – Alegando represália ao vazamento de uma simples menção ao ministro Dias Toffoli, do Supremo, Janot suspendeu o acordo de delação de Léo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS. Com essa desastrada providência, simplesmente desfez um trabalho que vinha sendo feito há dois anos pela Lava Jato, cujos resultados só estavam sendo colhidos agora.

O empreiteiro já tinha assinado o termo de confidencialidade, mas ainda não havia firmado o acordo propriamente dito. Por causa da decisão de Janot, três dias depois Pinheiro ficou em silêncio durante depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba (nesta quarta-feira, dia 24), e os anexos já apresentados por ele, em que denunciava a corrupção de grandes figurões da República, incluindo o ex-presidente Lula da Silva, agora estão sendo devolvidos a seus advogados.

IMPEDIR VAZAMENTOS? – Na era digital, os vazamentos de informações policiais e judiciais são praticamente impossíveis de se evitar. Por isso, desde o início da Lava Jato, têm sido uma constante, sem que jamais se conseguisse apurar seus autores.

Tomam conhecimento das investigações e podem fazer vazamentos o respectivo juiz federal e seus assessores mais próximos, além dos procuradores e delegados federais que atuam nos inquérito e processos em Curitiba, São Paulo ou Brasília, as três praças em que se divide hoje a Lava Jato. No caso de foro privilegiado, as informações passam pelo ministro Teori Zavascki, seus juízes auxiliares e assessores, o procurador-geral Rodrigo Janot e sua extensa equipe, além dos delegados federais que atuam junto ao Supremo em Brasília.

Com tanta gente envolvida, como identificar os autores de algum vazamento? É muito difícil, mas para o procurador Janot seria até fácil. Culpou logo o delator Léo Pinheiro, e estamos conversados. Foi uma imprudência.

MENSAGENS DE CELULAR – Os vazamentos ocorrem em jornais, emissoras de TV e revistas, indistintamente. Em janeiro, a TV Globo divulgou mensagens de celular mostrando que a rede de contatos da OAS abrangia integrantes dos três poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário. Nas mensagens, políticos chegam a cobrar ao então presidente da OAS as propinas que tinham sido prometidas por ele.

A delação de Léo Pinheiro tornou-se particularmente importante porque ele é o empreiteiro de maior proximidade pessoal com as cúpulas e os figurões dos três Poderes. Por isso, a inoportuna decisão de Janot provou imediatamente retrocesso nas investigações e fez a felicidade de muitos corruptos, porque os depoimentos anteriores de Pinheiro já estão sendo devolvidos e não mais servirão como provas para condenar os envolvidos.

O mais interessante é que o principal atingido, Dias Toffoli, não se defendeu com firmeza e até anunciou que não pretende processar a Veja por ter denegrido sua honra. Aliás, essa nem foi a primeira vez que seu nome surgiu na Lava Jato.

REAÇÕES ESTAPAFÚRDIAS – Enquanto Toffoli se recolhia, certamente por não saber até que ponto vão as informações de posse da Veja, o procurador Janot assumia precipitadamente a defesa do ministro do Supremo e reagia atabalhoadamente, digamos assim.

Logo em seguida, o ministro Gilmar Mendes, que é amigo íntimo de Tofolli, acionou a metralhadora giratória e saiu atacando a Lava Jato e a Procuradoria. E na quarta-feira o também ministro Marco Aurélio Mello veio à tona para defender a atuação da República de Curitiba e exigir que o vazamento seja investigado.

Ou seja, a crise institucional da Lava Jato enfim se instalou, para atrapalhar os inquéritos e fazer a festa dos  envolvidos no esquema de corrupção. Mesmo assim, la nave va, singrando fellinianamente o mar de lama.

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